Wilfred Bion

 

Clínico erudito e brilhante, reformulador da psiquiatria militar e grande clínico das psicoses e do borderline. Bion (Índia – 1897-1979) foi o aluno mais turbulento de Melanie Klein, cujo dogmatismo rejeitou para construir uma nova teoria sofisticada do self e da personalidade, fundada em um modelo matemático e repleto de noções originais – pequenos grupos, função alfa, continente/conteúdo, objetos bizarros, pressupostos de base, grade etc. – que, em certos aspectos, se assemelhavam às de Jacques Lacan. Tentou dar um conteúdo formal à transmissão do saber psicanalítico, apoiando-se em fórmulas e na álgebra. Grande viajante, fez escola não só na Grã-Bretanha, mas também no Brasil, principalmente em São Paulo.

 

Formou-se em filosofia e literatura na Universidade de Oxford e concluiu seus estudos humanísticos na Universidade de Poitiers dominando assim a língua francesa. Ingressou nos estudos médicos e começou a trabalhar como assistente na Travistock Clinic de Londres, posteriormente vindo a enveredar-se pelos caminhos da psiquiatria e da psicanálise.

 

Em 1937, Bion se integrou efetivamente à história do freudismo inglês, ao encontrar John Rickman, membro da British Psychoanalitical Society (BSP) que, além de tornar-se seu analista, o introduziu nas teses kleinianas. Mobilizado pela entrada na Inglaterra na Segunda Guerra Mundial, participou com Rickman e outros médicos na reforma da psiquiatria inglesa, que seria saudada por Lacan em 1946 dando origem à famosa teoria dos pequenos grupos. 

 

Bion e Rickman experimentaram em pacientes atingidos por neuroses de guerra o princípio do “grupo sem líder”, que consistia em organizar em pequenas células homens julgados inadaptados ou inúteis. Cada grupo definia o objeto de seu trabalho sob a orientação de um terapeuta, que apoiava todos os homens do grupo, sem ocupar o lugar de chefe e nem o de um pai autoritário. A experiência produziu resultados, mas foi brutalmente encerrada porque questionava o próprio princípio da hierarquia militar.

 

Em 1945, passou a fazer análise com Melanie Klein, que marcaria definitivamente sua orientação. Manifestou à esta seu desejo de trabalhar com independência e foi um discípulo fiel mas nunca submisso. Suas obras impressionaram a comunidade psicanalítica por sua complexidade, que revisou filosoficamente a obra freudiana e sua leitura kleiniana, concebendo que o inconsciente era fundado na linguagem. Bion dividiu o aparelho psíquico em duas funções mentais: alfa (fenômeno) e beta (númeno). Para ele, a função alfa preservava o sujeito do estado psicótico, enquanto a função beta o desprotegia.

 

A experiência com pequenos grupos permitiu Bion abordar o campo das psicoses acrescentando aos preceitos kleinianos o conceito dos objetos bizarros (partículas destacas do eu, com vida autônoma) e do ideograma (inscrição pré-verbal de um pensamento primitivo). Outro conceito que formulou foi o de que os grupos e os indivíduos seriam compostos de um continente e de um conteúdo. Se, para um indivíduo, o grupo funciona como um continente, cada indivíduo também é um conteúdo, pressuposto base, que determina suas emoções.

 

Para Bion, a personalidade psicótica é um componente normal do eu. Ora ela destrói o eu (impedindo toda forma de acesso à simbolização), ora coexiste com outros aspectos do eu (sem se tornar um agente de destruição). Outra grande contribuição de Bion foi a criação de um modelo de tratamento que nomeou de grade. Composta por um eixo horizontal de seis números, que representavam a relação transferencial, a grade deveria permitir ao mesmo tempo auxiliar o clínico em sua escuta e dar uma base dita científica à psicanálise.

 

O impacto de seu ensino, de sua doutrina e de sua técnica psicanalítica teve grande importância na difusão do que não se tardou a considerar como um neokleininismo (ou pós-kleininismo).

 

Adaptado de:

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.