Sandor Ferenczi

 

Foi não só o discípulo preferido de Freud, mas também o clínico mais talentoso da história do freudismo. Através de Sandor Ferenczi (1873-1933), a escola húngara de psicanálise produziu uma prestigiosa filiação de artífices do movimento, como Melanie Klein, Geza Roheim e Michael Balint. Sua obra é composta por numerosos artigos, redigidos em estilo inventivo e ligados à realidade.

 

Optando pela carreira médica, quando jovem trabalhou no Hospital Saint Roch e se mostrou adepto da medicina social. Sempre pronto a ajudar os oprimidos, a escutar os problemas das mulheres e a socorrer excluídos e marginais. Em 1906 tomou a defesa dos homossexuais em texto corajoso apresentado à Associação Médica de Budapeste. Lutou sempre contra os preconceitos reacionários da classe dominante.

 

Após ler com entusiasmo a Interpretação dos sonhos de Freud, visitou o célebre psicanalista sendo iniciado por este no teste de associação verbal. Durante décadas, trocou mais de 1200 cartas com Freud, as quais vieram a se tornar um verdadeiro tesouro da invenção teórica e clínica. Mais intuitivo, mais sensual e mais feminino, Ferenczi procurava na psicanálise os meios de aliviar o sofrimento dos pacientes. Era pois menos atraído pelas grandes hipóteses genéricas. Assim, era mais inventivo que Freud na análise das relações com o outro. Em 1908, descobriu a existência da contratransferência, explicando a seu interlocutor sua tendência em considerar os assuntos dos pacientes como seus. Dois anos depois, Freud conceitualizou essa noção, fazendo dela um elemento essencial na situação analítica.

 

Como muitos pioneiros do freudismo, experimentou em si mesmo os efeitos de suas descobertas ao viver uma relação amorosa com Gizella Palos, oito anos mais velha. Ligação essa tolerada pelo marido, entretanto lhe recusando o divórcio. Com o tempo veio a se tornar não apenas o analista de sua amante, mas também de sua filha, Elma, quando esta apresentou sintomas da depressão. Prática esta fortemente advertida por Freud. O fato é que Ferenczi veio a se apaixonar por Elma. Após diversas complicações neste verdadeiro triângulo amoroso, finalmente percebeu que se envolvera numa confusão transferencial, passando o tratamento da jovem para seu mentor e, ele mesmo vindo a se tratar com Freud em posteriores ocasiões. Assim, o inventor da psicanálise acreditava comprovar a tese anunciada em Totem e tabu, segundo a qual o desejo de incesto é inerente ao homem e só um interdito, formulado como uma lei, pode afastá-lo dele. Vemos então como atuaram nas relações entre Freud e Ferenczi, todas as contradições do tratamento psicanalítico que leva um sujeito a passar de um estado infantil para a idade adulta, da desrazão para a razão. Mas arriscando-se a que essa perda, longe de ser benéfica e fonte de uma nova paixão, não seja nada mais do que a expressão da vontade normalizadora do analista e, além, deste, da sociedade na qual ele vive.

 

Sandor Ferenczi ao lado do amigo e mentor Sigmund Freud

De qualquer forma, o episódio dessa confusão familiar e transferencial pode ser compreendido como a matriz de todas as reflexões posteriores sobre o estatuto incerto do tratamento psicanalítico, oscilando sempre entre um excesso de conformismo adaptador, que seria denunciado por Ferenczi e seus partidários, e a ausência de lei, contra a qual reagiram os herdeiros ortodoxos de Freud.

 

A partir de 1919, se empenhou na reforma completa da técnica psicanalítica. Inventou primeiro a técnica ativa, que consiste em intervir diretamente no tratamento através de gestos de ternura e afeto, depois, a análise mútua, durante a qual o analisando é convidado a “dirigir” o tratamento ao mesmo tempo que o terapeuta.

 

Já em 1924, publicou Thalassa. Ensaio sobre a genialidade, abordando o trauma do nascimento. No estudo, desenha-se o abandono da tese da prioridade do pai em prol de uma pesquisa sobre as origens do vínculo arcaico da criança com a mãe. Afirmava que a vida intrauterina reproduzia a existência primitiva dos organismos no oceano. Segundo ele, o homem teria nostalgia do seio da mãe, mas também procuraria regredir ao estado fetal nas profundezas marítimas. Essa abordagem da psicanálise a partir da teoria da cripta e das profundezas era acompanhada de inovações técnicas. Se a sessão analítica repetia uma sequência da história individual e se, aliás, a ontogênese recapitulava a filogênese, a reflexão sobre a própria sessão conduzia naturalmente à pergunta: qual o estado traumático que a ontogênese repete simbolicamente?

 

Adaptado de:

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.