Sigmund Freud

 

Conhecido como o fundador da psicanálise teórica e prática, Sigmund Freud (1856-1939) foi um médico neurologista austríaco, autor de 24 obras tidas como a base do método terapêutico que revolucionou a psiquiatria e a psicologia analítica.

 

Nascido em uma família judaica não-tradicionalista e aberta ao Iluminismo, ingressou nos estudos da medicina apaixonado pela ciência positiva e, principalmente, pela biologia darwiniana, que serviria de modelo para todos os seus trabalhos.

 

Como clínico no início de sua jornada, tratava de pacientes classificados como “doentes dos nervos” e “sofredores de distúrbios histéricos” de forma contrária ao conceito vigente na época, abordando-os não como um problema fisiológico, mas sim como questões da psique. Abandonou métodos terapêuticos aceitos até então como massagens, hidroterapia, eletroterapia e hipnose para adotar a catarse e inventar o método das associações livres, que substituiria a doutrina das “localizações cerebrais” por uma definição de “aparelhos psíquicos”. Em 1896 faz sua primeira formulação estabelecendo os fundamentos para a Interpretação dos Sonhos.

 

No âmbito de sua relação de amizade e intercâmbio científico com Wilhem Fliess, a partir de então, ocorreram vários dos grandes acontecimentos na biografia de Freud:

  • Sua auto-análise, fato histórico aceito pela comunidade freudiana como único caso de uma investigação de si mesmo não precedida de uma análise;
  • A publicação do primeiro grande livro – Estudos sobre a histeria (1895);
  • O abandono da teoria da sedução, segundo a qual toda neurose se explicaria por um trauma real. Renúncia essa fundamental para a história da psicanálise.

 

Começou então a elaborar sua doutrina da fantasia, concebendo em seguida uma nova teoria do sonho e do inconsciente, centrada no recalcamento e no complexo de Édipo. Da nova teoria do inconsciente nasceria em 1899 seu segundo grande livro, A interpretação dos sonhos.

 

Entre 1901 e 1905, Freud publicou seu primeiro caso clínico (Dora) e três outras obras: A psicopatologia da vida cotidiana (1901), Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905) e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Em 1902, ao lado de Alfred Adler, Wilhem Stekel, Max Kahane e Rudolf Reitler funda a Sociedade Psicológica das Quartas-feiras, primeiro círculo da história do freudismo. Durante o primeiro quarto do século, a doutrina freudiana se implantou em vários países como Grã-Bretanha, Hungria, Alemanha e EUA. Na Suíça produziu-se um dos maiores acontecimentos na história do movimento psicanalítico: Eugen Bleuler, médico-chefe da clínica do Hospital Burghölzli de Zurique começou a aplicar o método psicanalítico ao tratamento das psicoses.

 

Participou de seu primeiro congresso em Salzburg, em 1908, que reuniu todas as sociedade locais do movimento psicanalítico. Em 1909, ao lado de seu primeiro discípulo não judeu, Carl Jung, deu cinco conferências na Clark University, em Massachussets, EUA, reunidas sob o título de Cinco lições de psicanálise. Juntamente com Ferenczi, em Nuremberg, em 1910 fundou a Internationale Psychoanalytische Vereinigung (IPV), renomeada em 1933 como International Psychoanalytical Association (IPA).

 

Freud e comitiva na Clark University, EUA, 1909

Publicou entre 1909 e 1913, Freud publicou mais duas obras: Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância (1910) e Totem e Tabu (1913).  Após esse período, a expansão do movimento psicanalítico enfrentou profundas transformações havendo uma série de dissidências teóricas e técnicas, no tocante a questões como duração dos tratamentos, transferência, contratransferência, sexualidade e a noção de inconsciente. Adler, Stekel, Jung e Reich passam então a adotar lados opostos a Freud no movimento psicanalítico.

 

Nos anos 1920, Freud publicou três obras fundamentais, através das quais definiu sua segunda tópica e remanejou inteiramente sua teoria do inconsciente e do dualismo pulsional: Mais além do princípio do prazer (1920), Psicologia das massas e do eu (1921), O eu e o isso (1923). Este movimento de reformulação conceitual já começara em 1914, quando da publicação de um artigo dedicado à questão do narcisismo. Confirmou-se em 1915, com a elaboração de uma metapsicologia e a publicação de um ensaio sobre a guerra e a morte, na qual Freud sublinhava a necessidade para o sujeito de “organizar-se em vista da morte, afim de melhor suportar a vida”. Dessa reformulação, centrada na dialética da vida e da morte e, em uma acentuação da oposição entre o eu e o isso, nasceriam as diferentes correntes do freudismo moderno: kleinismo, ego psychology, self psychology, lacanismo, annafreudismo e independentes. Para postular a existência de uma pulsão de morte, Freud revalorizou duas grandes figuras da mitologia grega: Eros e Tânatos.

 

Em fevereiro de 1923, descobriu um tumor no palato, mal que meses depois necessitou de uma intervenção radical resultando na ablação dos maxilares e da parte direita do palato, fazendo-o adotar uma prótese no local. Isso não impediu Freud de continuar suas atividades, mas fez com que se afastasse das questões políticas do movimento psicanalítico. Jones assumiu o IPA e a partir de 1934.

 

Freud e Sandor Ferenczi

Apaixonado por telepatia, Freud não hesitou em se dedicar com Ferenczi, entre 1921 e 1933, a experiências ditas “ocultas” que iam contra a política jonesiana. Em 1926 tomou vigorosamente a defesa dos psicanalistas não-médicos, publicando A questão da análise leiga. No ano seguinte, deflagrou com seu amigo Oskar Pfister uma polêmica ao publicar O futuro de uma ilusão, obra na qual comparava a religião a uma histeria. Enfim, em 1930, com O mal-estar na cultura, questionava a capacidade das sociedades democráticas de dominar as pulsões destrutivas que levam os homens à sua perda.

 

Cada vez mais pessimista quanto ao futuro da humanidade, não tinha nenhuma ilusão sobre a maneira como o nazismo tratava os judeus e a psicanálise. Profundamente abalado, não se surpreendia com essa espantosa irrupção de bestialidade. Após a invasão da Áustria, em 1938, pelo exército alemão, decidiu recusar a política jonesiana e não criar em Viena um instituto “arianizado” como proposto por Mathias Heinrich Göring em Berlim. Tomou a decisão de dissolver a Wiener Psychoanalitsche Vereinigung (WPV). Graças à intervenção do diplomata americano William Bullitt e a um resgate pago por Marie Bonaparte, pode deixar Viena com sua família e se estabelecer em Londres, onde redigiu sua última obra, Moisés e o moneteísmo. Já em 1939, com sua saúde já bastante abalada, solicitou a seu colega Max Schur que colocasse fim à “essa tortura sem sentido”. E com o consentimento de Anna Freud, no dia 21 de setembro foi colocado em estado de coma induzido até que em 23 de setembro pode enfim descansar tranquilamente. “Foi a sublime conclusão de uma vida sublime”, conforme escreveu Zweig, “uma morte memorável em meio à hecatombe daquela época mortífera”.

 

Adaptado de:

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.