Psicanálise


A psicanálise foi definida por Freud, a partir de três perspectivas, como se pode constatar na citação abaixo.


PSICANÁLISE é o nome de:

  • um procedimento para a investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo,
  • um método (baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos, e
  • uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo dessas linhas, o que gradualmente acumula-se em uma nova disciplina científica[1].

     

Esses três aspectos apresentados por Freud, delineiam o campo da psicanálise, segundo três perspectivas:

 

(1) uma diferenciação da psicanálise em relação aos outros métodos de investigação psicológica; tal diferenciação caracteriza-se pela hipótese do determinismo inconsciente na lógica psíquica;

(2) a criação de uma nova técnica de tratamento para as disfunções mentais cujas intervenções visam a realidade inconsciente e cuja operacionalização fundamenta-se na técnica da associação livre e no manejo da transferência; 

(3) a possibilidade de articulação teórica entre os diversos elementos que vão se definindo a partir da observação e da escuta clínica.

 

 

Das três ideias apresentadas acima, três termos devem ser inicialmente destacados e definidos, pois a articulação entre os mesmos conduz o pensamento do leitor pelas definições de psicanálise: inconsciente, associação livre e transferência, sendo cada um dos membros:

 

(a) inconsciente: o inconsciente é o que define o campo psicanalítico[2] e o seu fundamento diz respeito ao estranhamento que cada sujeito humano experimenta em relação a si mesmo[3]. A experiência cotidiana desse estranhamento em relação a si mesmo é decorrente do ato de falar e manifesta-se por alguns fenômenos específicos, cujo mais conhecido é o “ato falho”, caracterizado por se dizer uma palavra quando, no contexto da conversa, se queria dizer outra. A relação do inconsciente com a fala pode ser fundamentada segundo os dois pontos de vista apresentados a seguir:

 

(1) as infinitas possibilidades que a palavra define: neste caso, evidencia-se o desconforto resultante da constatação do abismo entre o modo que o sujeito se define, ou seja, entre aquilo que ele acredita ser, e o que ele, idealmente, gostaria de ser, uma vez que o ideal falado e almejado está sempre em vantagem;

(2) a relatividade que a palavra imprime nas experiências vividas: o exercício da fala permite criar indefinidamente novos sentidos, ou seja, é sempre possível rescrever a própria história e criar indefinidamente novas estratégias, mais econômicas do ponto de vista psíquico, para enfrentar o confronto com a vulnerabilidade da condição natural, principalmente relacionadas ao corpo, ao semelhante e à finitude. Da noção de inconsciente, fundamenta-se a técnica mediante a qual se objetiva o encontro analítico.

 

 

(b)associação livre: é o objetivo do enunciado da chamada “regra fundamental da psicanálise”, mediante a qual o analista convida o analisando a falar tudo o que passa pela sua cabeça, procurando não censurar nenhuma ideia ou palavra por constrangimento ou por não achá-la relevante; com isso, ou seja, com uma produção de palavras sem uma intenção de significado pré-determinada, visa-se uma lógica outra que o sujeito desconhece mas que, no entanto, dirige as suas intenções, os seus atos, o destino dos seus afetos, ou em outras palavras, determina a formação dos seus sintomas. Daí, decorre a expressão “cura pela fala” que, desde os seus primórdios, procura caracterizar o processo psicanalítico. A aceitação dessa regra por parte do analisando só se dá mediante a relação estabelecida com o analista, desde as primeiras entrevistas, nomeada como transferência e definida abaixo.

     

(c)transferência: trata-se de um fenômeno presente em todas as relações humanas e diz respeito à atualização de afetos e emoções, que caracterizaram os vínculos do início da vida, nas relações atuais, isto é, com pessoas do tempo presente; no caso específico da psicanálise, o operador dessa atualização com a figura do analista é o saber que o analisando lhe atribui; saber esse que ele supõe que o libertará de seus incômodos.

 

[1] FREUD, S. Dois verbetes de enciclopédia: (a) Psicanálise, in Obras completas, RJ: Imago, p. 287.

[2] Sobre a discussão relativa à hipótese da existência do inconsciente a partir dos seus efeitos, ver JURANVILLE, A. Lacan e a filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987, pp. 21-52.

[3] Ilustra muito bem essa ideia a canção “Traduzir-se”, escrita por Ferreira Gullar (1930-2016) e interpretada pelo cantor Fagner: