PSICANÁLISE EM CARNE OSSO 3º programa: Quem tem filho(a) não morre engasgado(a)

PSICANÁLISE EM CARNE OSSO 3º programa: Quem tem filho(a) não morre engasgado(a)

PSICANÁLISE EM CARNE OSSO

3º programa: Quem tem filho(a) não morre engasgado(a)

Redação e elaboração do conteúdo: Ario Borges Nunes Junior

Entrevistador: Helena Haeni

Comunicação: Alexandre Feliciano

Data de gravação: 11 JUL 2020

Local: consultório do Ario / Santo André

Sumário

I-Apresentação

II-Feminino e reprodução

1.O ressentimento

2.Abordagem cinematográfica da condição feminina

3.O feminino e o privado

4.Gravidez: fenômeno no corpo

5.Parasitação e compensação

6.Mães e pais como dispensadores de gozo

7.Corpo e vulnerabilidade

III-Abstinência sexual, identidade de gênero e procriação

1.Articulação entre sexualidade e repressão

2.Abstinência sexual e recusa à procriação: neutralização da diferença sexual

3.Procriação e continuidade temporal

4.Pecado original: ruptura com a harmonia da natureza

5.Castigo e vulnerabilidade: o irredutível da condição natural

6.O masculino como função

7.A exclusão da procriação como superação da vulnerabilidade

8.Identidade sexual e procriação

9.Dispêndio de energia: a procriação como um limite

IV-A ambiguidade do pelicano

1.A complexidade do acolhimento de um novo ser

2.Ambiguidades nos afetos entre pais e filhos(as)

3.A analogia ao pelicano

4.Metafísica das relações entre pais e filhos(as)

5.Contabilidade previsível ou a lógica do superfaturamento

V-Considerações finais  

I-Apresentação

            O programa de hoje versa sobre o tema da reprodução humana, tendo como inspiração o ditado popular: «quem tem filho(a) não morre engasgado(a)». A reflexão está estruturada segundo linhas sucessivas de pensamento, assim intituladas: feminino e reprodução; abstinência sexual; identidade de gênero e procriação; e o pelicano.       

II-Feminino e reprodução

1.O ressentimento

Na contemporaneidade, o discurso sobre o feminino tem sido amplamente abordado, bem como suas variâncias, dentre as quais o feminismo, o feminicídio, e assim por diante… A questão sobre os gêneros sempre esbarra na dificuldade de caracterizção do feminino apontada explicitamente pelo próprio Freud, ao enunciar: «mas afinal, o que querem as mulheres?».

Tomando como contraponto os privilégios e as prerrogativas atribuídas ao gênero masculino, as narrativas sobre o feminino vêm sempre carregadas de doses de ressentimento, especialmente, no tocante à diferença de atuação dos homens e das mulheres ao longo da história. Bradam em uníssono os discursos de feições feministas: “é chegada a hora de fazer justiça, ou seja, dar às mulheres o que lhes foi negado”. Parece se considerar, segundo essa lógica, um tipo de «dívida histórica de gênero».

Tudo isso dificulta um pouco a tratativa dos temas que envolvem questões específicas não só das mulheres, mas de muitos outros temas que estão fervilhando nos dias de hoje, pois a obrigação à expressão de uma indignação atrapalha a dissecção do fenômeno que está sendo abordado. A complexidade do problema reside no fato de que a expressão da indignação, incentivada pelo discurso do “politicamente correto”, impossibilita, ou pelo menos obscurece, a apreensão e a análise de outros aspectos constituintes dos polêmicos fenômenos que povoam o imaginário contemporâneo[1].

2.Abordagem cinematográfica da condição feminina

Gostaria de mencionar dois filmes que trazem elementos interessantes para a reflexão sobre a tratativa moral destinada às mulheres na civilização ocidental, sob duas perspectivas: a da preservação (proteção e preparação para a vida) e a da perseverança (correção e manutenção do bom comportamento). Os filmes apresentam instituições próprias às mulheres, o primeiro, Departamento Q: em busca de vingança[2], reproduz um reformatório da Dinamarca, portanto, no campo da perseverança, um reformatório, que teve a suas atividades encerradas no início da segunda metade do século XX.

O segundo filme, O estranho que nós amamos[3], sob a lógica da preservação, retrata a dinâmica de um colégio interno para meninas da segunda metade do século XIX, no sul dos Estados Unidos, quando chega até lá um soldado ferido. Ambos apresentam a atuação feminina de modo discreto, objetivamente sutil, mas, ao mesmo tempo, devastadora, ou seja, apesar da atuação da mulher ter-se desenrolado, sobretudo, no âmbito privado da sede da família, do internato, do convento…, nem por isso ela deixou de ser intensamente significativa, fato tão bem demonstrado pelos dois filmes.

3.O feminino e o privado

Há uma interessante articulação entre um ambiente reservado e o tema da procriação, uma vez que tudo que a envolve diz respeito ao um contexto íntimo: a concepção, fruto de um ato a dois, privado por excelência; as transformações físicas durante a gravidez, que podem se expressar de maneira constrangedora, chegando ao ápice no momento do parto propriamente dito; mas as coisas não terminam por aí, uma vez que os atos de cuidado que exige a cria humana pressupõem também um ambiente que permita o desfrute da privacidade por um longo período de tempo.

É evidente que há um fator determinante na constituição da identidade dita feminina que está relacionado à gravidez, ao parto, às consequências desses fatos no corpo da mulher (um parêntese: acho que é até por isso que existem mais mulheres estigmatizadas do que homens, ou seja, elas estão mais acostumadas com as metamorfoses corporais…) e aos cuidados que cada cria humana demanda, especialmente, nos primeiros tempos de vida. Freud tomou o processo da maternidade pela lógica da compensação, ou seja, um filho restituiria à jovem mãe as satisfações roubadas quando da constatação da diferença anatômica entre os sexos e suas possíveis incidências na constituição da própria identidade.

4.Gravidez: fenômeno no corpo

Só apostando mesmo nessa compensação, as mulheres conseguem suportar os transtornos de uma gravidez seguida da outra, ao longo de anos.  É surpreendente imaginar que as mulheres até pouco mais de cinquenta anos atrás engravidavam inúmeras vezes. Era comum ouvir falar que tal mulher teve dez, doze filhos… Entender o que isso significa na realidade objetiva é difícil. Além das transformações físicas quase que de desapropriação do próprio corpo, que expressam uma metamorfose estrutural,  havia as manifestações envolvendo o temor do momento crucial: se o bebê entalasse, ao tentar sair ou ser retirado do corpo materno. Em tais condições, corriam risco de vida, tanto a mãe, quanto o filho ou a filha.

Tudo isso era vivenciado de forma quase contínua, uma vez que uma gravidez se sucedia à outra com curtos intervalos de tempo entre uma e outra e por um extenso período da vida. Além do que, nascido o rebento, grande parte do tempo da mãe teria que ser dedicado aos cuidados dele em um ritmo praticamente ininterrupto. A implicação objetiva que a geração e o cuidado com o novo ser requerem é tão radical que se torna impossível não considerá-la entre os elementos genuínos que integram a constituição da identidade feminina, de repercussões marcantes, tanto na área física, quanto na psicológica. Menciono, neste momento, um outro filme, Olmo e a gaivota[4], que trata das reflexões de uma gestante, durante a sua gravidez de risco, que exigia a suspensão de suas atividades profissionais como atriz .

5.Parasitação e compensação

Gostaria de destacar uma cena do filme Olmo e a gaivota, na qual a protagonista entretém os seus pensamentos com o fato, por exemplo, de que, durante a gravidez, algum dente pode amolecer, pois há tráfico de cálcio do corpo materno para o feto. Nessa narrativa encontra-se expresso o sentimento de ser parasitada pelo futuro filho, que é nomeado como um pequeno alienígena a quem ela tem o dever de servir. Trata-se da incidência de uma gravidez de risco, em um momento de intensa atividade profissional, portanto, inoportuna. As reflexões da protagonista estão esvaziadas da idealização que o discurso clássico veicula ao papel de mãe e de filho, como tem sido tão difundido pelas ideologias modernas e contemporâneas. 

Partindo-se para o sentido oposto, a gente se depara com a tentativa de fundamentar o valor da procriação em uma ideologia natural, atribuído um caráter quase sagrado nos atos de gerar e educar filhos e filhas. Os afetos envolvidos na maternidade aproximam-se dos sentimentos místicos, como, por exemplo (e aí vai outro ditado): «ser mãe é padecer no paraíso», que todos devem conhecer. Muitas vezes, assistimos situações em que há o heroísmo por parte dos pais em relação aos filhos. Por um lado, é não só muito interessante, mas, sobretudo, animador, constatar a capacidade que o ser humano tem de transcender no exercício da paternidade ou maternidade, por outro, a gente, enquanto psicanalista fica tentado supor uma contrapartida que vai implicar em uma conta no final da operação. Tudo que os pais e mães fizeram por seus filhos e filhas será devidamente ressarcido, com juros e correção monetária, se for o caso. Cabe a cada herdeiro tentar negociar o pagamento, pedir um desconto, dividir em prestações a se perder de vista… Podemos levantar a questão sobre a possibilidade de outros estilos de parceria com os filhos(as), diferentemente daquelas versões clássicas de mãe ou  de pai. O que, além disso, daria para ser em relação aos filhos?       

6.Mães e pais como dispensadores de gozo

Para a definição dessas «versões clássicas», baseio-me nos relatos clínicos e nas conversas sociais. Para sintetizar em uma única ideia, as «versões clássicas» são os  bem conhecidos modos  de manejar o comércio de gozo nos laços afetivos com os filhos e com as filhas. Por exemplo, castigar violentamente os filhos, em nome da boa formação dos mesmos. Sob uma perspectiva diversa, podem ser pensadas as reações dos pais e mães ás travessuras dos filhos(as). O sujeito gozou com o seu ato travesso. Nesses casos, parece até que o pai ou a mãe sente-se, a partir da “arte” do filho, no direito de gozar também, por isso batem nele. Os atos que envolvem agressão física (bater e ser batido, por exemplo) têm um alto valor de gozo. Com isso não quero amenizar a função dos pais e mães na formação dos seus filhos e filhas, muito pelo contrário. É importante frisar que cada atitude dos pais em relação aos filhos deve ser bem pensada e calculada; é necessária sempre uma análise preliminar.  A dívida imputada por muitos genitores aos seus filhos e filhas, referida logo acima, também se encena segundo uma lógica de gozo.

7.Corpo e vulnerabilidade

Tudo o que diz respeito ao corpo aponta para a condição vulnerável da natureza humana. A reprodução é um fato no corpo, no corpo feminino, e sua administração psicológica parece ser também muito trabalhosa. Sobre esses aspectos, muito pouco tem sido falado. As ciências humanas, em suas diversas vertentes, antropológica, social e mesmo psicológica, dialogam de forma elegante, extensa e contundente, sobre várias especificidades objetivas que se projetam sobre características específicas de cada gênero mas talvez a mais impactante – a participação de cada gênero na procriação – tenha passado batida.  

III-Abstinência sexual, identidade de gênero e procriação

1.Articulação entre sexualidade e repressão

A articulação direta entre sexualidade e reprodução parece não ter sido exaustivamente trabalhada pelos pensadores. É interessante observar que, nos últimos séculos, as reflexões sobre a sexualidade ficaram centradas na questão da repressão. Muito se especulou sobre isso. A ideia de que as pessoas carentes de satisfação sexual seriam mais facilmente manipuláveis por ideologias duvidosas, sempre correu, não só a boca pequena, mas também segundo enunciados explícitos.

No entanto, é importante destacar que, em alguns contextos, ao longo da história, a abstinência sexual foi uma livre escolha, associada à fortaleza de caráter, e, portanto, uma virtude. Na da difusão do cristianismo, pregava-se que transcender ao impulso sexual era possível e poderia ser encarado como um fruto da verdadeira liberdade da qual os fiéis cristãos poderiam desfrutar.

2.Abstinência sexual e recusa à procriação: neutralização da diferença sexual

Nas primeiras comunidades cristãs, a efetiva opção pela virgindade conferia para a mulher, um lugar de destaque e admiração, pois interpretava-se que uma virgem propunha-se, com veemência, vencer a concupiscência. Optar pela castidade livrava ainda as mulheres do casamento arranjado com homens não desejados, e, talvez do mais importante: dos perigos intrínsecos à gravidez e ao parto. Em síntese, no âmbito social, a escolha pela castidade tornava as mulheres semelhantes aos homens; quase que se rompia a diferença biológica[5]. A castidade seria um modo de eliminar a diferença biológica, ou seja, a paridade de gêneros e, é claro, a sua consequência mais imediata, o engendramento da prole. O fundamento mais absoluto da procriação concerne ao fato de haver dois gêneros. A fecundação é um ato a dois, mesmo que um deles só compareça só por procuração.

3.Procriação e continuidade temporal   

É importante mencionar, neste momento, como a doutrina religiosa e a literatura que nela se inspirou incitaram as reflexões sobre temas nodais da existência humana. Retomando, então, a referência à antiguidade cristã… A abstinência sexual foi levada a um radicalismo extremo por alguns grupos, como foi o caso daquele que ficou conhecido como «encratitas», termo (enkrateia) que quer dizer continentes, ou seja, aqueles que vivem em abstinência sexual. A seita desenvolveu-se principalmente entre os séculos II e IV.

Vários elementos estão condensados na ideologia do encratitas. O mais importante deles parece ser a associação entre a sexualidade e a vulnerabilidade humana. Os seres humanos só conheceram a realidade sexual porque se tornaram mortais com a adesão aos apelos da serpente que vivia no centro do Jardim do Éden, como relata o livro bíblico intitulado Gênesis. A partir, daí tornaram-se mortais e conheceram a realidade sexual como os demais animais. Assim, o exercício do ato sexual funciona como um testemunho perene de que se deve suplantar a morte por meio da geração de filhos. Combater os apetites sexuais era, portanto, um modo de tentar desfazer o poder da morte, de neutralizar as suas consequências[6]. Em um dos escritos apócrifos, no qual os encratitas fundamentaram sua ideologia, Evangelho segundo os egípcios, apresenta-se um diálogo entre Jesus e Salomé, no qual ele lhe diz: “os homens serão vítimas da morte, tanto quanto as mulheres derem à luz”.[7]       

Fica cada vez mais instigante especular sobre a função reprodutora enquanto fundamento último da atividade sexual. Outros expoentes do pensamento dos primeiros séculos da era cristã detiveram-se atentamente na especulação acerca da função procriadora da sexualidade. Coube a alguns Padres da Igreja apresentar a essência da sexualidade a partir daquilo mesmo que concerne à procriação. Vale a pena citar aqui o exemplo de São Gregório de Nissa (séc. IV), Padre da Igreja Oriental, bispo na Capadócia, que trabalhou a questão tomando a realidade da finitude humana, consequência direta do pecado original cometido por Adão e Eva,  como fundamento à procriação.

4.Pecado original: ruptura com a harmonia da natureza  

Para o bispo capadócio, de acordo com o célebre autor Peter Brown, «o surgimento de uma natureza sexual diferenciada nos primeiros seres humanos fora simplesmente uma adaptação secundária e necessária às novas condições criadas pela queda»[8], ou seja, a sexualidade não fora a causa da queda, mas sim sua consequência. Ainda, em relação, à caracterização do pensamento do santo capadócio, intui o historiador que, por meio da reprodução física, a natureza humana continua desfrutando de uma continuidade temporal, ainda que fragmentada devido às incursões circunstanciais da morte para todas as gerações. O autor sintetiza o pensamento do santo a respeito da sexualidade com o seguinte enunciado: «a sexualidade, para ele, significava reprodução», ou seja, uma possibilidade de continuidade da raça humana[9].

Continuando a incursão pela principal fonte da ideologia cristã, a Bíblia, já é possível encontrar os fundamentos da dinâmica entre os gêneros. A partir do conteúdo do 3º capítulo do livro do Gênesis, sabe-se que, do pecado da desobediência de Adão e Eva, inauguraram-se três vertentes: a consciência da diferença anatômica dos gêneros acompanhada do constrangimento daí decorrente («tive medo porque estou nu e me escondi»), as condições da procriação (dor no parto), e o sustento pelo suor do trabalho.

5.Castigo e vulnerabilidade: o irredutível da condição natural

A articulação desses três elementos define o campo do castigo, o qual formaliza a tentativa de ruptura do ser humano com a harmonia da natureza, ou seja, com a sua condição natural. A nudez porta a insígnia da diferença de sexos, o que remete, imediatamente, ao ato de procriar e à desolação decorrente da incidência da morte.  A parte do castigo destinada à mulher, no triângulo homem-mulher-serpente, foi assim enunciada pelo Criador: «multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos». Por que dar à luz na dor? Nessa condenação, a dor define-se como uma qualidade do ato efetivo de gerar uma nova vida e talvez possa expressar, do lado da mulher, o intenso trabalho que ela terá para executar minimamente a função de mãe.

A tais deliberações, acrescenta o Criador, dirigindo-se, ainda, à mãe da humanidade: «teu desejo te impelirá ao teu marido e ele te dominará». Esse último mandato encapsulou a representação da mulher (e todo imaginário daí decorrente) no seu próprio desejo, de modo que, para satisfazê-lo, ela é capaz de entregar tudo, até a si mesma, a ponto de perder a autonomia perante ao parceiro. O desejo feminino figura-se, assim, como outro lado da punição, que se traduz pela concessão da própria autonomia ao outro. É como se esses relatos fizessem acreditar que as mulheres necessitam de alguém que a s conduza, pois, por si mesmas, não chegam a um bom termo.

Ideologicamente, essa dinâmica imprimiu uma dose suplementar de vulnerabilidade à posição feminina e, ao mesmo tempo, de astúcia, desenvolvida na obstinação pela busca da satisfação via o desejo do parceiro. É interessante observar que essa lógica tendenciosa em relação à mulher pode sofrer uma inflexão em situações específicas, por exemplo, quando uma jovem desejava fazer a opção pela virgindade, o que foi frequente na antiguidade cristã. À execução do propósito, está suposta uma fortaleza de caráter dinamizada, justamente, pela possibilidade de superação dos apelos intrínsecos à condição natural. É interessante observar aqui que, de alguma maneira, a ilusão de superação da própria vulnerabilidade implica na exclusão da reprodução.

6.O masculino como função

No caso do homem, a sua cota de castigo, ainda, segundo o livro sagrado, foi constituída pelo dispêndio constante de esforço para garantir o sustento material da prole, enunciado pelo Criador a modo de veredicto. Isso faz equivaler a função paterna ao trabalho. Ao «pai» cabe, pelo menos inicialmente, fazer a ponte entre o interno e o externo, entre o íntimo e o público. Ao pai cabe, não só a participação no sustento material, buscado fora do ambiente íntimo do gozo caseiro, mas também incentivar o filho a construir estratégias para se posicionar nos diversos laços sociais disponíveis pelas diversas ideologia. Assim, o veredicto da condenação encapsulou o homem na lógica fálica, para a qual só a função tem valor, nunca o sujeito enquanto pessoa de gozo diretamente. Todo o gozo só vem roubado, extraviado pelos diversos sintomas bem difundidos das relações entre os genitores e seus rebentos, mas em todos os setores da vida. Ainda bem que, pelo menos, pode-se falar de tudo isso ao longo de uma psicanálise.

7.A exclusão da procriação como superação da vulnerabilidade     

Parece, também, muito instigante pensar sobre como teria sido a vida de Adão e Eva se eles não tivessem desobedecido o seu Criador. Será que só existiriam eles por toda a eternidade? Os dois viveriam imersos no gozo supremo, sem descendentes? De acordo com o raciocínio de São Gregório de Nissa, pode-se pensar que, se eles não tivessem perdido a condição imortal, não teriam necessidade de manter a continuidade do gênero humano pela procriação. Parece um raciocínio interessante relativo à especulação sobre as intenções do Criador ao engendrar o homem e a mulher. Se eles não tivessem pecado seriam imortais, viveriam eternamente, não haveria assim a necessidade de dar continuidade à espécie humana, pois ela já estaria garantida de saída por eles próprios. Em síntese, de acordo com a lógica bíblica, não faz sentido pensar em procriação fora do contexto da finitude.

8.Identidade sexual e procriação

Outro aspecto que retrata a complexidade da relação entre o exercício da sexualidade e a procriação diz respeito ao reconhecimento de uma identidade sexual. Tudo se torna bem mais elaborado quando se considera a diversidade de opções que se apresenta, contemporaneamente, a partir daí. Configuram-se diversos estilos para a formação de laços afetivos nos quais é reconhecida a oportunidade (ou não) de constituir uma prole ou uma linha de descendência.  É impossível não associar uma «escolha» inconsciente de adesão a um determinado estilo (desde os primórdios do desenvolvimento psíquico) sem levar em conta o posicionamento em relação à procriação que ele sugere. Se pudermos pensar em dissecar os critérios profundos envolvidos na escolha objetal e na definição de uma identidade sexual, certamente apareceria um que diz respeito à procriação.

Pode-se, facilmente, constatar que, nas mídias contemporâneas, estão disponíveis  várias configurações de parcerias afetivas que expressam convictamente (e efetivam) o desejo de exercerem as funções materna e paterna, independentemente da condição biológica de cada um dos seus integrantes. A impossibilidade do desenvolvimento do feto no interior do corpo dos candidatos a genitores, próprias a algumas parcerias amorosas, é elaborada pela procura de técnicas de inseminações artificiais, que possibilitam, ao menos, o desenvolvimento do embrião a partir de material genético proveniente dos futuros genitores. Graças às recentíssimas técnicas da especialidade médica “reprodução humana”, já estão desenvolvidas diversas estratégias relativas à fecundação fora do corpo feminino. Há “bancos” de material reprodutor feminino (doação de óvulo) e masculino (esperma). Não importa a pessoa do sujeito, mas apenas a prova de que aquele insumo genético provém dele.  

Podemos considerar, ainda, os casos de adoção. Em tais situações, há, também, uma desvinculação explícita entre o encontro sexual e o advento do filho ou filha. A ausência de um lastro biológico tornaria a vivência da maternidade ou da paternidade um pouco mais tranquila porque não incidiriam sobre os genitores as responsabilidades envolvidas no trabalho de reconhecimento narcísico característico da parentalidade natural? Ou poderia valer, justamente, a lógica oposta: por não haver o consolo do reconhecimento narcísico espontâneo expresso pela genética e pela consanguinidade, o trabalho de reconhecimento desse filho ou filha exigiria uma construção mais cautelosa do que no caso de filhos naturais. Enfim, deve-se considerar sempre que cada caso é um caso e há, como sempre, um vasto leque de opções para cada sujeito fazer as suas.

9.Dispêndio de energia: a procriação como um limite 

A sexualidade faz as vezes de uma função eloquente dos aspectos mais singulares da pessoa que lutam pelo direito de expressão mediante as mais diversas formas de ser. De acordo com essa dinâmica, a realidade corporal não quer se colocar como um limite; sua plasticidade tenta acompanhar o exercício livre da virtualidade para a encenação de uma identidade ou de um estilo de ser, que pode acolher qualquer construção elaborada no universo da fantasia. O que não deixa de se constituir também como tentativa de vencer a vulnerabilidade vivenciada a partir da condição natural. A dinâmica inconsciente envolvida no exercício de uma determinada identidade sexual é sempre fruto de uma complexa lógica e envolve um trabalho mental que passa pelo confronto com a vulnerabilidade que o ato de engendrar um novo ser humano exige. É sempre muito impactante o confronto com a fragilidade do novo ser humano, que advém da fecundação.

De qualquer forma, parece que a lógica inconsciente tomada para o cálculo do dispêndio de energia que os exercícios da paternidade e da maternidade implicam leva sempre a um resultado muito alto, ou seja, a decisão de criar um outro ser humano é muito trabalhosa. A lógica de gozo a qual os pais e as mães impõem aos seus filhos e filhas, já mencionada por mim no 1º programa, pode ser pensada como uma espécie de restituição que os pais exigem dos filhos pelo imenso trabalho, não só físico, mas principalmente mental, que esses demandaram, ainda mesmo antes de existirem em carne e osso para esses genitores.

IV-A ambiguidade do pelicano

1.A complexidade do acolhimento de um novo ser

Não é possível considerar a questão sexual sem levar em conta sua consequência mais imediata, ou seja, a existência de um novo ser humano. A vinda de um novo sujeito, por sua vez, exige uma acolhida com estrutura altamente complexa. No programa anterior, abordei a questão relativa ao enfraquecimento do outro enquanto realidade corpórea, em carne e osso. No esforço de tentar integrar as reflexões, pode-se levantar a seguinte questão: quais as repercussões da plastificação do outro, que temos assistido, especialmente nas ideologias das redes sociais e dos relacionamentos virtuais, nas relações entre os pais, as mães e seus filhos?

Para abordar a questão, poderíamos, inicialmente, pensar a respeito das expectativas de se “construir” um filho com características escolhidas previamente, a partir de critérios de otimização da existência como os estéticos e os de saúde. Tais características estão e estarão cada vez mais disponíveis nos cardápios relativos às técnicas de reprodução humana assistida. Que repercussões o acesso à arquitetura do filho originalmente ideal haveria no trato ordinário com o mesmo? A representação simbólica, nesses casos, estaria mais ao lado do filho revestido da função de objeto para satisfazer os caprichos mais insondáveis dos candidatos a genitores do que do lado de oferecer um lagar vazio para que a alteridade possa vir habitar.

2.Ambiguidades nos afetos entre pais e filhos(as)

A psicanálise veio desvelar elementos sombrios das relações entre pais e filhos tão bem conhecidos pela moral ocidental. A trama de afetos que faz pano de fundo ao desenvolvimento infantil é repleta de ambiguidades, de desejos pouco nobres e de ressentimentos. Como mencionado acima, a administração do gozo nas relações dos pais e das mães com suas “crias” é bastante complexa. Os filhos têm os pais como objetos de desejo e os pais tomam os filhos como objetos de entretenimento. No sentido de arrefecer o ímpeto dessas dinâmicas, a tratativa moral foi impondo um caráter transcendental que vincula os pais e as mães às filhas e aos filhos e, também, vice-versa.

3.A analogia ao pelicano

Gostaria de apresentar aqui uma consagrada insígnia dessa complexa condensação de afetos entre pais e mães, filhos e filhas. Trata-se da figura do pelicano. Muito foi escrito sobre essa misteriosa ave, desde a antiguidade pagã. As narrativas relativas a ela trazem conteúdos ambíguos a respeito de sua relação com os seus filhotes, e podem ser tomados como alegorias de inúmeros aspectos das relações parentais humanas. Por exemplo, foi destacado pelo escritor antigo, Eliano, em sua obra De natura animalium, o fato de que o pelicano, quando há escassez de alimento, vomita a comida ingerida no dia anterior para alimentar os filhotes. Em relação ao abutre, os egípcios, atribuíam a essa ave um intenso amor materno pelos filhotes. Se falta comida para os filhotes, fere-se na pata, de modo que os pequenos possam se nutrir do sangue produzido a partir do ferimento.   

Um texto escrito no Egito, provavelmente do século II d. C., Physiologus, descreve o enigmático pelicano, salientando aspectos de forte ambiguidade na relação dele com os filhotes. Segundo o texto, os filhotes do pelicano, assim que nascem, voltam-se contra os genitores, atacando-os e esses, por sua vez, os matam. Depois, por três dias choram pelos filhotes que mataram e, por fim, a mãe fere-se com o bico no flanco e o sangue jorrado do ferimento cai sobre os filhotes mortos, ressuscitando-os[10]. Outras versões da mesma obra apresentam algumas alterações na narrativa, porém, sempre fica em evidência o caráter ambíguo que define a relação dos genitores pelicanos com seus filhotes.

Uma outra narrativa apresenta o pai pelicano indo buscar alimento enquanto a mãe permanece no ninho, chocando. Pelo excesso de beijos da mãe, os filhotes ficam feridos e acabam morrendo; depois de três dias o macho retorna e, ao encontrar os filhotes mortos, fere-se no flanco e o sangue produzido cai sobre os filhotes que ressuscitam, e, assim, surgiram outras versões com algumas variantes dessas narrativas, como a introdução de um ou outro detalhe ou um novo personagem, como o caso da serpente, por exemplo. Fato é que que os autores cristãos tanto da antiguidade, quanto do período medieval, usaram e abusaram da figura do pelicano e das narrativas que o cercam buscando analogias com a figura de Cristo.      

O pelicano dá voz ao lado mais intenso da ambivalência, ou seja, aquele que concerne ao assassinato dos próprios filhotes, ou a morte pelo excesso de beijos como na 2ª versão do Physiologus. Na tradição judaica, o pelicano é considerado uma ave impura, da qual é proibido comer a carne, como prescrevem os livros bíblicos do «Levítico» (11, 13-18) e do «Deuteronômio» (14, 11-12, 17). O livro sagrado, nos Salmos, faz ainda uma referência ao caráter solitário do pelicano, quando o situa no deserto. O pelicano tem um corpo magro, o que favorece, também, sua associação ao estilo do ascetismo próprio aos eremitas e monges. Por todos esses aspectos, o pelicano é tomado como uma imagem oportuna por expressar vários aspectos do imaginário religioso cristão.

4.Metafísica das relações entre pais e filhos(as) 

O ditado «quem tem filho não morre engasgado» expressa uma dificuldade da contabilidade de gozo entre pais e filhos. Propõe que a intensidade do amor materno e do amor paterno podem transcender a realidade objetiva e a lógica natural. Instaura-se um clima sobrenatural, ainda que os mitos criados em torno do pelicano questionam o valor absoluto do amor. A naturalidade da lei de conservação da própria vida relativiza-se em confronto com o risco de existência do filho(a).

Em geral, os genitores oferecem a própria vida para preservar a vida dos filhos. A própria existência torna-se secundária em relação à vida dos filhos. O pai ou a mãe dá a vida pelo filho ou pela filha. De acordo com essa lógica, torna-se fácil para cada um entender e aceitar que o que resta de comida para os genitores é quase sempre o excedente à saciação dos filhos. Todo mundo reconhece o preceito ético. 

5.Contabilidade previsível ou a lógica do superfaturamento 

Conceder a prerrogativa aos filhos, no caso da alimentação implica em pelo menos comer pouco, portanto, diminui a probabilidade de engasgamento que, em certa medida tem a ver com a (grande) quantidade de alimento ingerida. A gente, enquanto psicanalistas, sabe que é muito provável que a concessão de tal prerrogativa tenha o respectivo superfaturamento, pois, no nobre do ato está presente também um elemento que atua em causa própria, pois, deve-se considerar que ingerir pouca comida diminui também a probabilidade de engasgamento. A realidade humana sempre se constitui a partir da tentativa de superfaturar a condição natural.  Está aí a pulsão para prová-lo. A lógica da pulsão é a do superfaturamento do instinto, ou seja, qualquer objeto é, em potencial, um objeto de gozo.  

V-Considerações finais

Na maior parte dos casos, no que concerne a aferir a relação com os(as) filhos(as), é possível a cada pai ou a cada mãe, tentar ir além do próprio narcisismo, ir além da crença no brilhantismo atribuído à própria produção. Tentar encontrar outras posições para além dos extremos caracterizados pela exaltada idealização ou pela franca decepção, de modo que possa identificar um espaço vazio para que, nele, o sujeito filho se constitua a partir de seus próprios parâmetros. Formalizar a própria experiência para transmiti-la aos filhos apresenta-se como um recurso disponível para o enfrentamento das situações decisivas que a vida vai apresentando, além do que sua operacionalização não parece tão complexa. As crianças, os adolescentes e os jovens têm que, em certa medida, contar com as experiências dos pais e das mães e, antes de mais nada, é claro, com sua boa vontade para transmiti-las.

De outro modo, ou seja, no campo do gozo, expresso pela idealização e pelo ressentimento, pela expectativa da oferta incondicional mútua e pelo dever de restituição, ou, simplesmente, pela competição e pelo entretenimento com as dificuldades e com as desventuras alheias, facilita-se a cristalização em um curto-circuito de contemplação e de superfaturamento da impossibilidade de completude com esse outro filha / filho, que está sempre um passo aquém ou além da roupagem tecida pelo narcisismo dos pais.


[1] A partir do campo psicanalítico do gozo, poderiam ser formuladas algumas questões relativas às projeções das mulheres na história da humanidade. Por que as mulheres teriam consentido em ocupar um papel de retaguarda em relação à história passada a limpo?

[2] Departamento Q: em busca de vingança. Diretor: Cristoffer Boen.

[3] O estranho que nós amamos. Diretora: Sofia Coppola.

[4] Olmo e a gaivota. Diretoras: Piera Costa e Lea Glob.

[5] Cfr. PELAJA, M. – SCARAFFIA, L.  Dos en uma sola carne: Iglesia y sexualidade en la historia. Madrid: Ediciones Cristiandad. 2011, pp. 40-52   

[6] Outro argumento que se produziu a partir da análise da interlocução entre o sexo e a procriação, ainda no campo de religião (eclesiástico), pode ser exemplificado pela problemática imposição do celibato aos membros da hierarquia eclesiástica. Tal imposição foi imposta aos seus integrantes – os padres e os bispos – e visava a conservação do patrimônio material da Igreja, restrita sempre aos mesmos contornos e dirigida por sujeitos do gênero masculino. Sem dúvida, essa razão jurídica fundamenta, em parte, o exercício do celibato pelos membros da Igreja, porém, parece existir uma razão mais fundamental, que concerne ao fato da conceitualização teológica relativa à sexualidade como memorial da finitude e, consequentemente, o exercício da sua abstenção (castidade) como tentativa de superação dessa condição. É como se os membros mais privilegiados da Igreja, ou seja, a sua hierarquia, estivessem elegantemente dispensados de participar da trágica lógica do circuito finitude-nascimento. 

[7] Cfr. BLOND, G.  Les encratites et l avie mystique. In: Mystique et continence: Travaux Scientifiques du VIIº Congès International D’Avon. Bruges: Desclée de Brouwer. 1952, pp. 117-130.

[8] O termo «queda» refere-se à desobediência do primeiro par humano (Eva e Adão) em relação ao preceito divino de não comerem do fruto da árvore situada no meio do Jardim do Éden; a consequência imediata da desobediência foi a consciência de que eles estavam nus (Cfr. Gênesis 3, 3-7).

[9] BROWN, P.  Corpo e sociedade: o homem, a mulher e a renúncia sexual no início do cristianismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1990, pp. 245-246. 

[10] COLETTI, M. L.  “Pellicano”. In: VEGLIANTI, T. (org.)  Dizionario Teologico sul Sangue di Cristo. Roma: Centro Studi Sanguis Christi / Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana. 2007, pp. 1025-1035.  

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