Psicanálise e Mística: o lamento da incompletude

São Vicente Ferrer (1350-1419), estátua portuguesa em madeira, séc. XIX/XX, 33 cm de altura, resplendor em prata

 

A mística é um campo que apresenta familiaridade com o campo analítico, também, pela via do corpo. O corpo, enquanto prova da irredutibilidade do natural, é um limite à virtualidade simbólica. O lamento pela incompletude é a forma de expressão dessa constatação. A convicção busca rebater o lamento. A certeza de ir além do dado, de transcender a realidade objetiva na qual se insere cada experiência, parece ser o principal fator que motiva o seu exercício.

 

Como modalidade da experiência estética, a experiência mística também convoca o corpo para dotá-lo de consistência, no confronto com a evanescência própria ao discurso e às ideias. O corpo é todo tomado. Vislumbra-se a possibilidade de expansão do gozo, para além das mirradas “zonas erógenas”. O corpo, no entanto, entra em cena até o seu último lote. A plasticidade da carne acompanha a virtualidade da palavra só até um limite definido. Para além dele, esgarça.

 

Do ponto de vista estético, o arrebatamento é a expressão do ápice. O sujeito empregou tudo. Posteriormente, transborda na escrita e instaura-se um clima de tranquilidade.