Psicanálise e Corpo

Michelangelo Buonarroti (1501-1504) – Davi

Qual o papel do corpo na lógica psíquica de cada um? O corpo pode ser tomado como um material bruto que o sujeito vai conformando ao longo da vida de modo análogo ao trabalho que o escultor realiza no bloco de pedra?

 

O corpo pode ser pensado como outro, como a alteridade por excelência para o sujeito que o habita. O seu funcionamento autônomo, as suas produções, entre excrecências, dores e rumores, sempre provocam surpresa e muitas vezes constrangimento, além do que sua própria presença veicula continuamente a expectativa do fim.

 

Na atualidade, há um esforço implacável para se domesticar o corpo, mediante técnicas exaustivas de educação física, dietas tenebrosas que só não surpreendem os eremitas da antiguidade cristã.

 

A ideologia que norteia tal representação e trato com o corpo sustenta-se no superfaturamento da plasticidade da carne. A crença do sujeito em conformar o próprio corpo a seu bel prazer, por meio de intervenções sempre mais invasivas, imerge-o em um estado de gozo, extraído da relação com a consistência material da sua carcaça natural.

 

Busca-se testemunhar a qualquer preço que a convicção da fantasia é suficientemente intensa para superar até as leis naturais. A plasticidade da carne parece ser um recurso extremo ao qual o sujeito se agarra para não sucumbir à evanescência de sua real condição de falante. Para tanto, necessita-se cada vez mais da encenação criteriosa da fantasia da qual o corpo é o aliado mais eficiente.