O processo psicanalítico: linhas gerais

 

O gozo do sentido fixa as experiências sempre nos mesmos fragmentos discursivos (explicações), impedindo a emergência de novidades. O sujeito privilegia certos enredos para construir a sua história, sempre com a firme crença de superfaturar certos significados em causa própria, por exemplo, “se eu for bonzinho, eu serei recompensado”; “o sofrimento purifica a vida”, e assim por diante.

 

As suas narrativas inscrevem-se em um conjunto limitado de enunciados, o que lhes confere um tom lamurioso. O combate a esse estado de apatia, por sua vez, permite a emergência de uma satisfação (ética), que impele o sujeito a atualizar naturalmente o poder de inovação próprio ao uso da palavra, posto em marcha pelo convite à associação livre.

 

A experiência psicanalítica conduz a um aprofundamento no universo da falta (J. Lacan). Ela produz um sujeito que, perante a insuficiência do seu dito, sente-se impelido a procurar (ilusoriamente) a palavra plena, criando, assim, um inesgotável fluxo de palavras. O trabalho de recriação, a partir de cada dito, assemelha a experiência psicanalítica à experiência estética, o que favorece a apresentação do sujeito ao mundo por meio de um recorte próprio, de um estilo, talvez.

 

O caráter virtual da linguagem permite atribuir a cada fato da existência uma infinidade de possibilidades contidas no reservatório de significações. Esse trabalho pode ser definido como potencial esperança de tornar a vida mais interessante e prazerosa, em oposição ao conforto estático oferecido, nessas condições, pelo gozo do sentido, no entretenimento com as explicações já conhecidas.

 

Deve-se levar em conta ainda que o campo no qual a experiência humana se desenvolve é extremamente complexo, pois se caracteriza como superfície de fronteira, ou seja, interface na qual a palavra afeta a substância viva. Tomados sob essa perspectiva, os fatos clínicos vão sendo dissecados segundo análises cada vez mais sofisticadas.

 

O ofício cotidiano de psicanalista inspira interlocuções entre o campo definido pela disciplina e outras produções humanas. Dentre as inúmeras possibilidades que se inauguram a partir daí, pode-se destacar, de imediato, a possibilidade do exercício literário. O campo da psicanálise é enriquecido pela dimensão estética, o que favorece a sua transmissão.