O sujeito dividido

 

A poesia, muitas vezes, apresenta de maneira clara e elegante as questões centrais da existência humana, das quais se ocupa também a psicanálise. A narrativa poética corre ao lado da expressão de aspectos radicais da condição humana. A forma poética é importante, pois atenua o impacto que a crueza das constatações relativas ao universo natural provoca, remetendo o sujeito para a realidade metafísica por meio do recurso à dimensão estética. Essa talvez seja a sua função mais importante, que pode ser imediatamente constatada, por exemplo, na escuta do poema Traduzir-se, composto pelo escritor Ferreira Goular (1930-2016) e muito bem interpretado pelo cantor Fagner. Nessa composição poética, encontra-se expressa de maneira evidente o cerne da condição humana, nomeado pela psicanálise como “divisão subjetiva”.

 

Os sentidos do verbo “traduzir” são definidos sempre a partir de uma relação entre duas situações, dois fatos, duas coisas: transpor de uma língua a outra, revelar, manifestar, representar, simbolizar. A plena identificação é da ordem da utopia. Não se pode reduzir uma coisa à outra. No universo dos seres falantes, trata-se sempre de uma relação e, assim, só é possível estabelecer pontes de comunicação, alusões ou analogias, entre dois ou mais elementos. Disso, decorrem inúmeras descontinuidades concernentes à percepção de si mesmo e do mundo. A coexistência de afetos e ideias desencontrados e mesmo incompatíveis exige um esforço de síntese, de mínima coerência para se sustentar uma identidade reconhecível por outros sujeitos. O efeito poético assim produzido, fruto de um trabalho de combinação genuína de palavras, pode ser ainda potencializado, no universo da estética, pelo seu rebatimento no campo da sonorização do cantor.

 

Traduzir-se 

Uma parte de mim

é todo mundo;

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera

outra parte;

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta;

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente;

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem;

outra parte,

linguagem.

Traduzir-se uma parte

na outra parte

– que é uma questão

de vida ou morte –  

será arte?” 

Poema de Ferreira Goullart e música de Raimundo Fagner