Melanie Klein

Melanie Klein (Viena, 1882-1960) foi a principal expoente da segunda geração psicanalítica mundial. Deu origem a umas das grandes correntes do freudismo, o kleinismo, e graças a Ernest Jones, que a chamou para a Grã-Bretanha, contribuiu para o desenvolvimento considerável da escola inglesa da psicanálise. Transformou totalmente a doutrina freudiana clássica e criou não só a psicanálise de crianças, mas também uma nova técnica de análise didática. Sua obra é composta por cerca de cinquenta artigos, o livro A psicanálise das crianças e uma Autobiografia inédita até então.

Sua vida foi marcada por uma juventude repleta de lutos e sentimento de culpa por eles, além de uma relação tirânica e possessiva por parte da mãe. E um conturbado casamento precipitado com o engenheiro Arthur Klein em 1903. Fatos estes que imprimiram vestígios em sua obra teórica. Mas foi somente em com a leitura do texto Sobre os sonhos, de Freud, que iniciou sua análise com Sandor Ferenczi. A partir de então passou a participar das atividades da Sociedade Psicanalítica de Budapeste, da qual se tornou membro em 1919. Seu primeiro estudo de caso foi apresentado no mesmo ano, dedicado à análise de uma criança de cinco anos, na verdade, seu próprio filho Erich.

Devido a onda de anti-semitismo que assolava Budapeste, atraída pela personalidade de Karl Abraham e pela vitalidade do grupo que o cercava, instalou-se em 1921 na capital alemã, Berlim.

No começo de 1924, começou sua segunda análise com Karl Abraham, de quem adotaria algumas ideias para desenvolver suas próprias perspectivas sobre a organização do desenvolvimento sexual. Em abril do mesmo ano, apresentou no VIII Congresso da IPA em Salzburgo, uma controversa visão da psicanálise infantil, na qual começava a questionar certos aspectos do complexo de Édipo. Em seguida, Melanie foi a Viena para fazer uma comunicação na Wiener Psihoanalytische Vereinigung (WPV) confrontando sua abordagem de que a psicanálise de crianças seria a oportunidade de uma exploração psicanalítica do funcionamento psíquico desde o nascimento, em contraposição à visão de Anna Freud, de que a mesma deveria ser uma nova e aperfeiçoada forma de pedagogia.

Melanie Klein e Anna Freud

Pela amizade com Alix Strachney, ingressou na British Psychoanalitical Society (BPS) e, a partir de 1926 se instalou em Londres, marcando efetivamente o início das hostilidades entre as escolas vienense e inglesa, com Ernest Jones apoiando que as teses de Melanie Klein se inscreviam na lógica das suas e, Freud, tomando partido pelo trabalho de sua filha Anna.

Em Londres, Melanie Klein experimentou suas teorias tratando os filhos perturbados de alguns de seus colegas. Mas sua personalidade invasiva provocou à sua volta paixões e repulsas. Em 1921, durante o X Congresso Internacional de Innsbruck, o conflito com Anna Freud se ampliou: Klein apresentou sua comunicação, “Os estádios precoces do conflito edipiano”, na qual expunha explicitamente suas discordâncias com Freud sobre a datação do complexo de Édipo, sobre seus elementos constitutivos e sobre o desenvolvimento psicossexual diferenciados dos meninos e das meninas. Sua primeira obra de síntese, A psicanálise de crianças, a qual expunha a estrutura de seus futuros estudos teóricos foi publicado em 1932. Foi nesse mesmo ano que sua filha, Melitta Schimdeberg tornou-se analista e sua proximidade com a família Freud e Ferenzi reprisou os mesmos conflitos que experimentara com sua própria mãe.

Melanie Klein e sua neta Diana

 

A partir de 1933, Londres foi destino de inúmeros analistas vienenses e berlinense, que fugiam da perseguição nazista. E foi com a chegada de Freud à capital inglesa que a tensão no seio da BSP atingiu níveis críticos. Em meio a bombardeios e aos horrores da guerra, os analistas preocupavam-se mais em fazer reuniões para debater os pontos de discordâncias científicos e técnicos.  Em 1946, depois de negociações marcadas principalmente pela demissão de Edward Glover, um lady´s agrément se produziu – mas que nem sempre foi respeitado -, resultando na institucionalização de uma divisão na BPS entre kleinianos, annafreudianos e Independentes.

 

No Congresso da IPA em Genebra, realizado em 1955, Klein apresentou uma comunicação intitulada “Um estudo sobre a inveja e a gratidão” na qual desenvolvia o conceito de inveja, que articulava com sua extensão da pulsão da morte. Ao fazer isso, reatava com aquele que sempre considerara seu mestre, Karl Abraham. Porém, faleceu em 1960, vítima do câncer de cólon, sem haver se reconciliado com sua filha Melitta.

 

Adaptado de:

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.