Jacques Lacan

Dentre os grandes intérpretes da história do freudismo, Jacques Lacan (Paris, 1901 – 1981) foi o único a dar à obra freudiana uma estrutura filosófica e a tirá-la de seu ancoramento biológico, sem com isso cair no espiritualismo. O paradoxo dessa interpretação inovadora é que ela reintroduziu na psicanálise o pensamento filosófico alemão, da qual Freud havia voluntariamente se afastado. Jacques Lacan reinterpretou quase todos os conceitos freudianos, assim como os grandes casos e acrescentou ao corpus psicanalítico sua própria conceitualidade.

Depois de estudos no Colégio Stanislas, rompeu com o catolicismo, voltando-se para o nietzscheísmo. Ficou fascinado com a vanguarda literária e, mais especificamente, com Charles Maurras cujo estetismo adotou. Na Paris de 1920, tornou-se residente no Hospital Sainte-Anne, onde foi aluno de Henri Claude. Em 1932, começou sua análise didática com Rudolph Lowenstein e, no fim do ano, publicou sua tese sobre a história de uma criminosa, da qual fez um caso de paranoia de autopunição (o caso Aimeé). Magnífica síntese de todas as aspirações freudianas e antiorganicistas da nova geração francesa, esse trabalho foi imediatamente considerado uma obra-prima.

Se era estimado como um brilhante intelectual fora dos meios psicanalíticos franceses, Lacan sofreu por não ser reconhecido pela Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP). Mas graças à intervenção de Édouard Pichon, foi titularizado em 1938. Pouco antes, em 1936 iniciou-se na filosofia hegeliana e, após ter circulado por meios de grande riqueza cultural e teórica, teve a certeza de que Freud deveria ser relido “ao pé da letra” e à luz da tradição filosófica alemã. Constatando que a psicanálise nascera do declínio do patriarcado, Lacan apelava para a revalorização de sua função simbólica em um mundo ameaçado pelo fascismo. No início da Segunda Guerra Mundial, interrompe toda sua atividade pública, recebendo apenas sua clientela particular.

Revalorizando o inconsciente e o isso, Lacan atacou uma das grandes correntes do freudismo, a Ego Psychology, da qual seu ex-analista se tornara um dos representantes, e que ele assimilava a uma versão edulcorada e adaptativa da mensagem freudiana. Chamava-a de “psicanálise americana” e lhe opunha a peste, isto é, uma visão subversiva da teoria freudiana, centrada na prioridade do inconsciente.

Na SPP, Lacan atraiu muitos alunos, fascinados pelo seu ensino e desejosos de romper o freudismo acadêmico da primeira geração francesa. Começou então a ser reconhecido ao mesmo tempo como didata e como clínico. Seu senso agudo da lógica da loucura, sua abordagem original do campo das psicoses e seu talento lhe valeram um lugar especial aos olhos da jovem geração psiquiátrica e psicanalítica.

Como todos os países após a Segunda Guerra Mundial, a França freudiana entrou na era dos conflitos institucionais. A primeira cisão ocorreu em 1953, e se desenrolou em torno da criação de um novo instituto de psicanálise e da questão da análise leiga. Contestado ao longo desta crise, pela sua prática das sessões de duração variável (sessões curtas), que questionavam o ritual da duração obrigatória de 45 a 50 minutos imposto pela IPA, Lacan entrou na briga ao lado dos universitários liberais em contraposição aos adeptos da ordem médica. Recusando qualquer ideia de assimilação da psicanálise pela psicologia, considerava os estudos da filosofia, da linguagem ou da psiquiatria como as três melhores formações para um analista.

Em 1953 foi então formada a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP) por Daniel Lagache, apoiado por Lacan e pelos principais representantes da terceira geração psicanalítica francesa. E foi logo no primeiro congresso da instituição, realizado em Roma no mesmo ano, que Lacan fez uma notável intervenção “Função no campo da fala e da linguagem na psicanálise”, na qual expôs os principais elementos do seu sistema de pensamento, provenientes da linguística estrutural e de influências diversas oriundas da filosofia e da ciência. Elaborou vários conceitos (sujeito, imaginário, simbólico, real, significante), que desenvolveria ao longo dos anos enriquecendo-os com novas formulações clínicas e depois, lógico-matemáticas: foraclusão, nome-do-pai, matema, nó borromeano e sexuação.

Mas ao deixar a SPP, os fundadores da nova SFP tinha perdido, sem se dar conta, sua filiação à International Psychoanalitical Association (IPA). Depois de anos de discussão e intercâmbio, a IPA recusou a Lacan o direito de formar didatas. As razões da recusa eram complexas, mas principalmente implicavam com suas transgressões ritualísticas. A segunda cisão (“extracomunhão”, como diria Lacan) do movimento analítico ocorreu em 1963. Em 1964 a SFP foi dissolvida e Lacan fundou a École Freudienne de Paris, enquanto a maioria de seus alunos se posicionou ao lado de Lagache, na Associação Psicanalítica da França (APF), reconhecida pela IPA.

 

Com Os Escritos, publicado em 1966, Lacan recebeu enfim a consagração esperada e merecida: cinco mil exemplares foram vendidos em apenas 15 dias. Já a venda da edição de bolso atingiu cento e vinte mil exemplares o primeiro volume, mais cinquenta e cinco mil exemplares o segundo volume. Lacan seria então reconhecido, celebrado, odiado ou admirado como um pensador de envergadura, e não mais apenas como um mestre da psicanálise.

 

Em 1974, Lacan dirigiu a Universidade de Paris-VIII no departamento de psicanálise. Encorajou então a transformação progressiva de sua doutrina em um corpo de doutrina fechado, enquanto trabalhava para fazer da psicanálise uma ciência exata, baseada na lógica do matema e na topologia dos nós borromeanos. Veio a falecer em 1981 atingido por distúrbios cerebrais e por uma afasia parcial.

 

Adaptado de:

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.