Donald Woods Winnicott

Dotado de excepcional gênio clínico e considerado um grande pediatra, foi o fundador da psicanálise de crianças na Grã-Bretanha antes da chegada de Melanie Klein. Classificado como pertencente ao grupo dos Independentes, deixou uma herança conceitual fundamental. Nascido em Plymouth, Winnicott (1896-1971) estudou medicina e em 1923 orientou-se para a pediatria e para a psicanálise.

No momento em que começou sua formação psicanalítica, a British Psychoanalytical Society (BSP) estava em crise. Conflitos acirrados opunham os kleinianistas e os annafreudistas. Todavia foi no grupo kleiniano que completou sua formação. Mas seguiu seu caminho no grupo dos Independentes, o que convinha muito bem à sua posição doutrinária, que consistia em tentar elaborar uma concepção pessoal e original da relação de objeto, do self e do brincar.

Em sua obra Da pediatria à psicanalise (1958), apresentou um conjunto de posições sobre o tema. Ao contrário de Melanie Klein, interessava-se menos pelos fenômenos de estruturação interna da subjetividade do que pela dependência do sujeito em relação ao ambiente. Não aceitava a explicação freudiana da agressividade em termos da pulsão de morte e definiu a psicose como um fracasso da relação materna. Daí a sua crença em uma certa normalidade fundada nos valores de um humanismo criador. Segundo ele, era o “bom funcionamento” do laço com a mãe que permitia à criança organizar o seu eu de maneira sadia e estável.

Depois, foi o trabalho durante a guerra com crianças refugiadas e, consequentemente, privadas das presenças maternas que levou Winnicott a desenvolver um conjunto de novas noções. Em sua opinião, a dependência psíquica e biológica da criança em relação à mãe tem uma importância considerável. Se a mãe estiver incapaz, ausente ou, pelo contrário, demasiadamente intrusiva, a criança se arrisca à depressão ou a condutas antissociais, como o roubo ou a mentira, que são maneiras de reencontrar por compensação, uma mãe “suficientemente boa”.

 

Sua psicanalítica sempre esteve em contradição com os padrões da International Psychoanalitical Association (IPA). Winnicott não respeitava nem a neutralidade nem a duração das sessões, e não hesitava, na linhagem da herança de Ferenczi, em manter relações de amizade calorosa com seus pacientes, reencontrando sempre a criança neles e em si mesmo. Via na transferência uma réplica do laço materno. Assim, oferecia a seus analisandos um “ambiente” especial. Às vezes, tomava-os nos braços e prolongava a sessão durante três horas. Dedicou sua última obra, O brincar e a realidade, aos seus pacientes, “que pagaram para me ensinar”.

 

Seu não-conformismo, sua ausência de ortodoxia nunca lhe foram realmente reprovados pelos seus colegas da BPS. A partir de sua experiência terapêutica, transmitiu um ideal de “não-ruptura” que repercutiu em suas posições institucionais. Embora avesso ao embate tirânico que sempre envolveu a política institucional conduzida por Melanie Klein e Anna Freud, considerava que nenhuma instituição era melhor do que a outra, pois todas dependiam do fingimento e só a instauração de um justo meio podia favorecer a expressão da verdade. Winnicott sempre preferiu criticar a instituição analítica a partir de seu interior a separar-se dela.

 

Independente sem ser solitário, não gostava de seitas, discípulos e imitadores. Foi por isso que, mostrando-se ao mesmo tempo transgressor em sua prática e rigoroso em sua doutrina, não hesitou em apoiar os rebeldes e os dissidentes – principalmente Ronald Laing, um dos artífices da antipsiquiatria. Morreu subitamente em 1971 decorrente de problemas cardíacos e, em sua homenagem, escreveu J. B. Pontalis “ Talvez não haja nenhum sucessor, ninguém para ser seu seguidor. E é melhor assim. Com mestres, a psicanálise pode sobreviver durante algum tempo. Sem juízes e mestres, ela tem a possibilidade de viver indefinidamente”.

 

Adaptado de:

ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.