Arqueologia das tatuagens e outras marcas no corpo contemporâneo: da estigmatização mística à body art

Arqueologia das tatuagens e outras marcas no corpo contemporâneo: da estigmatização mística à body art

Arqueologia das tatuagens e outras marcas no corpo contemporâneo: da estigmatização mística à body art

Prof. Dr. Ario Borges Nunes Junior

http://lattes.cnpq.br/0050075271071771

Resumo

Arqueologia das tatuagens e outras marcas no corpo contemporâneo: da estigmatização mística à body art. Prof. Dr. Ario Borges Nunes Junior. O presente estudo visa caracterizar os fenômenos das tatuagens, piercings e outras marcas e sinais produzidos ao longo da extensão corporal, tão expressivos entre os adolescentes e jovens contemporâneos, para, em seguida, relacioná-los a outras manifestações culturais que envolvem o corpo, uma situada no campo religioso e a outra, no estético: os estigmas místicos e a body art, respectivamente. As três manifestações (as tatuagens e os piercings, a body art e os estigmas místicos), ainda que de maneira própria e de acordo com as circunstâncias temporais e ideológicas específicas que as definiram, evidenciam o caráter plástico da carne, enquanto garantia para o sujeito do triunfo do virtual sobre o natural.

Palavras-chaves: corpo, tatoos, piercings, body art, estigmas místicos

Abstract

Archeology of tattoos and other marks in the contemporary body: from mystical stigmatization to body art. Prof. Dr. Ario Borges Nunes Junior. This study aims to characterize the phenomena of tattoos, piercings and other marks and signs produced along body extension, so expressive among contemporary adolescents and young people, and then relate them to other cultural manifestations involving the body, one situated in the religious field and the other in the aesthetic: the mystical stigmas and the body art, respectively. The three manifestations (tattoos and piercings, body art and mystical stigmas), although in their own way and in accordance with the temporal and ideological circumstances that defined them, show the plastic character of the flesh, as a guarantee for the subject triumph of the virtual over the natural.

Keywords: body, tatoos, piercings, body art, mystical stigmas

1)Introdução

Na contemporaneidade, têm chamado a atenção dos clínicos e estudiosos as lesões autoinfligidas, especialmente, nos corpos de adolescentes e jovens[1]. Tais lesões podem ser agrupadas segundo duas grandes vertentes: uma relativa à aceitação social e outra, em sentido oposto, pela crítica do grupo de pertença do sujeito em questão. As tatuagens e os piercings alojam-se na primeira categoria, enquanto que as escarificações, ou seja, as incisões e cortes, mecanicamente provocados e acompanhados da contemplação passiva da efusão de sangue por parte do seu autor, provocam, de imediato, um rechaço da comunidade. Especialmente, para esses últimos casos, voltam-se as atenções dos psicanalistas, psicólogos e médicos, uma vez que tais fenômenos demandam intervenções na tentativa de preservação não só da saúde mental, mas também da integridade física. As marcas autoprovocadas apresentam-se aos olhos dos estudiosos como resultantes de fenômenos psíquicos de lógicas altamente complexas. Tais fenômenos podem ser pensados à luz de outros que se fizeram presentes ao longo da história, como as intervenções mecânicas no próprio corpo visando uma identificação religiosa ou mesmo só a força do desejo mobilizando o aparato carnal em seu caráter plástico e nele inscrevendo essas marcas carregadas de significações não só religiosas.

2)As tatuagens e outras intervenções no corpo de significativa expressão contemporânea

2.1)Considerações históricas sobre a prática de tatuagens

Aplicações sobre a extensão corporal estão presentes em todas as civilizações e foram se constituindo enquanto ritual envolvendo certas práticas litúrgicas ao longo da história humana. Tem-se notícia de inscrições no corpo já nos primórdios da humanidade. A prática da tatuagem não se adequou à ideologia judaica: no livro bíblico do Levítico, encontra-se uma referência direta de proibição de incisões no próprio corpo[2]. Remontando dois mil anos antes da era cristã, no Egito antigo, foram encontradas marcas na região abdominal da múmia de Amunet (2160-1994 a.C.); as marcas no corpo da múmia foram interpretadas como alusões aos rituais de fertilidade (cf. superabril.com.br). Na antiguidade greco-romana, a etimologia das palavras que nomeavam as inscrições no corpo humano provinham da raiz stig, que significa picar. Para essas civilizações, os sinais feitos na extensão corporal estavam relacionados à degradação de um condenado, ou seja, alguém a quem foi imputado um delito, ou de um escravo (JEHA, 2016, p. 15).

No decorrer dos séculos, a difusão da prática de tatuar foi facilitada pelas expedições marítimas, que levaram o costume aos pontos mais distantes do globo terrestre. A cultura da tatuagem foi uma cultura de navio, difundida pelos marujos, que exerciam também o ofício de tatuadores. A prática da tatuagem exercia uma presença marcante em instituições fechadas, como as prisões e os quartéis. O confinamento parece incentivar incisões na própria superfície corporal, de modo que, tal superfície serve ao sujeito para nela registrar elementos de sua história pessoal vivida em um contexto diverso daquele constituído por suas referências originais. Assim, pode-se pensar que a dinâmica principal que mobiliza a produção de marcas no próprio corpo seja acionada pelo desejo de não correr o risco de se separar da própria história, ainda que em condições de isolamento.

Mais recentemente, no auge da mentalidade iluminista, com o furor expansionista dos europeus, são reconhecidos como tatuados os corpos dos povos da Polinesia, o que ficou registrado no diário de bordo do chefe de expedição, James Cook, em 1780, inclusive, nesse registro, encontra-se pela primeira a palavra que deu origem ao termo tatuagem: tatau, da origem taitiana, cujo significado está relacionado com o ato de marcar a pele com objetos cortantes e pigmentos (JEHA, 2016, p. 14). A técnica consistia em injetar um pigmento sob a pele para que se formasse uma mancha sob a superfície cutânea. Ao longo da história do ocidente, a incidência e a difusão de tais práticas fizeram-se presentes, com maior ou menor expressão ideológica.

Na era contemporânea, por exemplo, a prática de tatuar os corpos adquire expressão máxima. A partir da década de 1970, do século XX começaram a se difundir vários movimentos de rebeldia às convenções sociais, como os punks, por exemplo. Nesses contextos, as tatuagens e outras produções no corpo retratam a busca de uma singularidade pessoal, em meio a um fausto desfile de opções para se tentar ancorar uma identidade reconhecível de si mesmo (LE BRETON, 2007, p. 34)

2.2)Identidade e traço na carne

Do ponto de vista antropológico, pode-se pensar na prática de imprimir marcas físicas na pele como uma possibilidade de trazer a história pessoal inscrita próprio no corpo. Isso tangencia diversas modalidades de experiências culturais: os rituais religiosos, as estratégias de identificação e de pertença a um grupo, a definição de uma condição social, um apelo estético de ornamentação, a necessidade de camuflagem, dentre outras.

Enquanto mensagem aos grupos associados ao poder, as tatuagens podem expressar uma atitude de transgressão em relação aos padrões impostos pela ideologia social dominante. A tatuagem estimula a exposição do corpo, forçando a ampliação dos limites da tolerância e da aceitação grupal em relação ao trato com o mesmo. Cada vez mais, torna-se aceitável reprocessá-lo à própria vontade, ao bel prazer, de acordo com os requintes mais excêntricos.

Na contemporaneidade, pululam ´maneiras de se tratar o corpo a fim de que ele atinja o desempenho máximo: funcional e estético. Dietas minimalistas e técnicas de educação física, envolvendo alongamento e resistência, garantem um funcionamento corporal eficiente, integrado às necessidades de conservação natural; vestimentas que modelam o corpo para que dele se obtenha uma performance cada vez mais otimizada como insígnia de resistência à finitude; reformulação da massa corporal por meio de cirurgias e outras técnicas ortopráxicas. Tudo isso propõe o corpo como tela de exposição para os signos nele marcados, portanto, abre-se a possibilidade de modelá-lo, configurá-lo, enfeitá-lo. As inscrições no corpo podem, ainda, atuar como um modo de sacralizá-lo, de oferecer-lhe uma segunda pele, um manto que contenha uma verdade transcendente escrita nos signos impressos na superfície corporal (BYNUM, 1995).

Uma perspectiva de tendências mais metafísicas pode situar as marcas das tatuagens e das outras inscrições cutâneas no plano estético. A superfície corporal, nesse sentido, funciona como uma tela tal qual aquela em que o pintor inscreverá os traços do seu pincel, ou o bloco de pedra dentro do qual o escultor encontrará, depois de muito desbastar, a forma ideal para fixar a sua obra no mundo objetivo. O corpo tomado como obra permite a sua ressignificação mediante duas vertentes: a da plasticidade, isto é, a da sua possibilidade constante de metamorfose e, decorrente disso, a da construção cultural que o apresenta como área que contém uma mensagem a ser decifrada. O corpo, nessas condições, atualiza a função de Outro absoluto para o sujeito. Instaura-se, assim, um padrão de relacionamento entre ele e o seu corpo, enquanto alteridade (LE BRETON, 2011).

A vertente mercadológica instala-se com conforto: há para todos os gostos. A ideologia relacionada às tatuagens e outras inscrições corporais desenvolve-se em contextos dessa natureza. Sempre, em relação a elas, encontra-se um caráter, senão de escolha, ao menos de adesão, ritualístico. O sujeito reconhece na concretude da marca corporal um signo material de sua existência evanescente. Reconhece-se como adepto a uma ideologia, em companhia de alguns semelhantes. O signo na pele torna-a uma superfície protetora simbolicamente contra a incerteza do mundo; confere ao corpo uma filiação, por meio de um ritual de passagem: mudando o corpo muda-se a si mesmo (LE BRETON, 2007). Tudo isso parece autenticado pela efusão de sangue e pela percepção da dor.

Algumas pesquisas de inspiração psicanalítica enfatizam a lógica das identificações presente no interesse pela prática da tatuagem. Ao mesmo tempo, marca de pertença a um determinado grupo, expressa pelo ritual de inscrição das insígnias no corpo e pelo significado simbólico atribuído ao seu conteúdo imaginário, e de diferenciação, pois dizem respeito a um sujeito único, e são marcas impressas em determinadas circunstâncias e em um recorte temporal específico na vida daquele sujeito (ORLANDI apud AZEVEDO, 2014). As tatuagens podem ser pensadas, também, como signos da contradição da vivência em relação ao próprio corpo, ao mesmo tempo tão familiar e tão estranho, tão íntimo e tão comunitário.

O o sujeito busca um reconhecimento de identidade ao lançar mão do recurso das técnicas de intervenção corporal que ficaram conhecidas pela expressão generalista body modification. Oferece-se uma infinidade de imagens de corpos que podem suportar qualquer identidade. As imagens gravadas na superfície cutânea e as lesões voluntariamente produzidas por objetos confrontados com o corpo natural dão voz a uma mensagem velada, enigmática, muitas vezes norteada por uma lógica não imediatamente reconhecível pelo sujeito (PIRES, 2005). A pele inscrita desdobra-se em uma segunda veste. Além disso, está em jogo, ainda, a sensação. A busca de intensos contrastes experimentados na carne sob a forma de dor e de angústia.

2.3)Sangue e dor

Nos casos em que a tatuagem figura como um traço de menos valia, a vontade própria do sujeito não atua como motivação para a execução do procedimento. A marca de uma culpa ou a insígnia de uma etnia conferem ao sujeito um status social precário, como o de prisioneiro ou de escravo. Têm sido objeto de estudo as marcas feitas em corpos de sujeitos confinados em tais condições, como, por exemplo, nos campos de extermínio nazistas. As inscrições, geralmente numéricas, são realizadas à revelia do sujeito. O corpo é mídia e a marca ali tatuada e perpetuada funciona, materialmente, como um sinal de alerta sociopolítico, primeiramente aos descendentes dos deportados e depois à sociedade como um todo. As marcas impressas nos seus corpos os tornam testemunhos vivos de uma realidade histórica que não deve se repetir (RAMOS, 2006).    

A vasta gama de representações associadas às marcas corporais vai, passo a passo, remetendo ao assombroso universo da fantasia, encenado segundo o eixo vítima-dor. A busca da percepção de dor, nos atos definidos como automutilação, isto é, ferir deliberadamente o próprio corpo,  tem chamado a atenção dos pesquisadores. No Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, é definida a categoria “Autolesão não suicida”, cuja característica diagnóstica essencial diz respeito ao «comportamento repetido do próprio indivíduo de infligir lesões superficiais, embora dolorosas, à superfície de seu corpo». O sujeito reconhece que tais atos visam «reduzir emoções negativas, como tensão, ansiedade e autocensura, e/ou resolver uma dificuldade interpessoal; em alguns casos a lesão é concebida como uma autopunição merecida» (DSM-V, pp. 803-804).  

O caráter material de inscrição, que provavelmente produziu sangue e dor ao ser conformado, funciona como ponto de basta à eterna virtualidade do pensamento, pois testemunha que o corpo, na sua naturalidade, fenece, ao mesmo tempo, em que continua a insinuar que a expressão simbólica aponta para o cume. A resistência inerente à consistência carnal pode ser superada por meio da formação de um laço, ou seja, de um «investimento libidinal» (SOLER, 2016, p. 15). A elasticidade da libido permite  o estabelecimento de laços com várias modalidades de objetos: com uma circunstância específica da vida, com uma pessoa, com um grupo ou com uma ideologia.

A dor que acompanha a produção da marca visa enriquecer o ato com a consistência imaginária. A adesão em massa das pessoas em relação às tatuagens e outras inscrições corporais como os piercings, as escarificações podem ser explicadas pelo fato de que as técnicas de manipulação dolorosa do próprio corpo estão relacionadas a uma finalidade transcendente, qual seja, a de superar a dor física, ou, ao menos, não dar-lhe crédito: « a dor não é valorizada, não é corredentora ou iniciática, nem mesmo é um limite – é indiferente, ninguém se detém nela» (LE BRETON, 2007, p. 45).

No entanto, a percepção da dor, regada pelo fluxo sanguíneo, atua como testemunha imaginária da consistência da cena que se estabelece em tais circunstâncias. Várias pesquisas sustentam-se no estabelecimento de relações entre fatos clínicos e tradicionais conceitos psicanalíticos, como pulsão de morte, masoquismo etc. Oferecer a pele para ser perfurada e depois preenchida com um corante envolve a percepção de tomar o corpo como uma superfície de inscrição e de comunicação, ideia tão bem colocada pelo pensamento psicanalítico que extrapola o seu valor primordialmente natural e assume a condição de veículo de uma mensagem sobre a história do sujeito. A superfície cutânea reafirma o seu papel de fronteira, de transição entre o dentro e o fora, entre o natural e a palavra A dor envolvida no ato da inscrição define a borda da pele como tela para a impressão dos afetos mais arcaicos e das representações mais primitivas[3]. Tais impressões dão-se de forma imediata, não sendo inteiramente sustentadas pelas operações simbólicas, sendo então necessário recorrer à consistência imaginária, ou seja, à marca concreta, cavada na carne e testificada com sangue[4].

2.4)O corpo enquanto limite

David Le Breton (2007), ao analisar os fenômenos relacionados às tatuagens e aos piercings, toma o corpo segundo a perspectiva de uma espécie de retrato instantâneo do sujeito. Destaca o aspecto temporal envolvido nas metamorfoses físicas autoinduzidas. No entanto, a sucessão pode ser infindável, do ponto de vista conceitual, porém esgota-se frente a uma perspectiva eminentemente física, natural. Em última instância, o corpo continua a ser um limite intransponível, mas, mesmo assim, as intervenções corporais vão se expandindo em envergadura: a tatuagem, o piercing, o transexualismo, a produção de anomalias em certas regiões do corpo, as performances (CORBIN – COURTINE – VIGARELLO, 2006, p. 552).

A questão da plasticidade da carne assume o ápice de sua radicalidade em algumas modalidades artísticas agrupadas sob a denominação de body art, que habitam um território entre as artes plásticas e as artes cênicas. A artista francesa Orlan transforma em body art, em Arte carnal, como ela mesma denominou,as intervenções cirúrgicas para a remodelação do próprio corpo, filmadas e transmitidas em vídeo. Nessas condições, o corpo situa-se para além da dor. «Na performance cirúrgica, a artista desmistifica o ato cirúrgico, já que ela própria decide transformar seu corpo como sujeito da ação, em posição de se servir da mestria da Ciência para questionar a própria Ciência» (GRECCO, 2005, p. 109). A ideia de permanência da substância orgânica dá lugar a um corpo totalmente transmutado, do qual só resta inalterada a voz, suporte da palavra.

Marina Abramovic, expoente da arte contemporânea, nascida na Bulgária e residente na Itália, revolucionou a ideia de performance colocando à prova o próprio corpo, os seus limites e a sua potência expressiva; a artista propõe um corpo sem limites. O confronto com a dor é controlável, o que querem provar as situações extremas encenadas por alguns atores da body art. (Cf. Marina Abramovic: the cleaner. Firenze. Palazzo Strozzi 21 Settembre 2018 – 20 Gennaio 2019).

A obra encarna-se no corpo do artista, e para tanto ele necessita do seu duplo que, em cada performance, é assumido pelo o público, que, por sua vez, envolve-se em uma experiência coletiva que questiona o caráter ordinário da existência e as regras do comportamento cotidiano; é como se o artista oferecesse a sua mão ao expectador «e o sucesso da operação depende de como e quanto o expectador está disposto a aceitá-la» (VERGINE, L. Il corpo come linguaggio: la “Body Art” e storie simili, p. 15).

É indispensável que o público coopere com o artista, uma vez que esse necessita ser confirmado na sua identidade. Com a «obra», ele estabelece uma relação de alteridade e é a partir dessa experiência que se vislumbra para o artista a possibilidade da consciência de si mesmo, segundo M. Merleau-Ponty (1994), a obra insere-se no próprio corpo e essa carnalidade garante ao ser uma existência pré-humana. As modificações corporais querem provar que o corpo é maleável; nunca se chega a uma forma definitiva, o corpo está sempre por ser feito, em uma forma inacabada e imperfeita (LE BRETON, 2007).

3)Os estigmas místicos: arqueologia das inscrições corporais contemporâneas

A liturgia do corpo que o apresenta marcado e ferido com objetos cortantes, lâminas e alfinetes tem uma longa história. A insígnia corporal mais marcante do imaginário cristão diz respeito à possibilidade do aparecimento das chagas da paixão de Cristo no corpo de um fiel. Até o século XIII, o desejo de identificação com Cristo, por parte de alguns místicos e místicas, era atualizado na conformação física mediante o impacto de um objeto cortante. A hagiografia clássica enumera alguns exemplos, como a Beata Cristina de Spoleto (†1458) e a mística cisterciense Elisabeth de Herkenrode (†1275) (THURSTON, 1961). Com o caso de São Francisco de Assis (1182-1226), entra em cena a dimensão psicológica: o desejo de identificação com Cristo é capaz de acionar o processo físico, corporal, não sendo necessária a ação mecânica de um objeto cortante.

Na época barroca, por exemplo, vários místicos cristãos descrevem os maus tratos a que submetiam o próprio corpo, por razões de culpa e expiação. Por exemplo, sobre a mística capuchinha Maria Madalena Martinengo (1687-1736), de Brescia, Itália, beatificada em 1900, foi escrito que «mergulhava espinhos no corpo, em particular na cabeça» e, ainda, por um médico que examinou o cadáver: «é admirável que as agulhas no corpo não tenham dado nem inflamação, nem úlceras nem gangrena» (LEITE, 2003, p. 365).

O fenômeno da estigmatização mística começou a ser abordado com maior precisão teológica com a figura do santo de Assis. As reflexões sobre essa categoria de fenômeno místico surgiram inspiradas nos registros hagiográficos sobre sua pessoa, nos quais havia narrativas relativas à incidência dessas marcas no seu corpo, no final de sua vida provocadas pela visão extática do serafim alado, durante uma estadia no Monte Alverne.

Os estigmas, além da dor e do sangue produzidos que testemunham a sua consistência, não estão submetidos à lógica temporal clássica, isto é, a do período histórico em que viveu o santo. Teologicamente, tudo o que Cristo viveu em sua dimensão histórica, continua presente em sua dimensão transcendente, que oportunamente, pode voltar a se manifestar em atuações específicas, reentrando em qualquer momento na dimensão histórica novamente, via o corpo do místico (ARTOLA, 2002). Há, ainda, a incidência relativa aos dias da semana que, no caso, diz respeito ao aparecimento das chagas às quintas e o seu posterior desaparecimento às sextas-feiras.

Na produção dos estigmas místicos, problematiza-se o modo pelo qual o sujeito relaciona-se com o seu próprio corpo, isto é, como ele o emprega para sustentar imaginariamente a sua identidade, segundo uma economia de gozo de sentido. É possível utilizar o corpo como testemunho inquestionável.

A questão da origem dos estigmas místicos é bastante complexa. Sustenta o discurso religioso que a sua ocorrência é acompanhada pelo estado alterado de consciência – o êxtase. O desejo é realizado apenas por forças metafísicas: as chagas se conformam sem que haja qualquer estímulo contundente que poderia romper a superfície da pele, entretanto, não é possível descartar totalmente a hipótese de que os ferimentos seriam produzidos mecanicamente, pelo sujeito em estado alterado de consciência associado à inédia, de modo que ele não pudesse se lembrar posteriormente do seu ato, atribuindo-lhe uma origem enigmática (FESSLER, 2009).  

Além da própria história da tatuagem e de outras marcas corporais, desenvolveram-se também outras manifestações em contextos específicos como o religioso, nos quais as práticas de ascese e de sacrifício implicavam em levar o corpo à diversas formas de exaustão. Os clássicos estigmas místicos tão familiares à mística cristã têm um parentesco evidente. Sua pretensa origem transcendental, no entanto, coloca-os em um patamar acima. A marca, nesse sentido, funciona ao contrário da lógica das tatuagens dos campos de concentração ou dos escravos, ou seja, tem um valor de prerrogativa, de eleição. Outro ponto de aproximação entre as tatuagens e os estigmas místicos diz respeito aos pigmentos corantes utilizados no primeiro caso e ao sangue desprendido, no segundo.  

Nas narrativas sobre a dinâmica da estigmatização, a filiação divina deve ser garantida com uma marca no corpo, testificada pelo sangue. Os recursos exclusivamente simbólicos não são suficientes para fixarem alguns elementos da cadeia de palavras, então o corpo tem que fazer essa suplência.

4)Considerações finais    

O interesse pelas tatuagens e outras intervenções no corpo, como os piercings, as escarificações que se intensificou e se expandiu espantosamente nas últimas décadas dialoga com outros fenômenos que tiveram incidência em épocas históricas de ideologias diversas, mas que apresentam estruturas semelhantes e características comuns. Deve-se levar em conta, a partir das décadas de 1960 e 1970, a concomitância entre a vanguarda da body art e esse incremento incalculável no interesse das pessoas, especialmente, jovens e adolescentes de praticarem incisões dolorosas no corpo.

Distanciando-se mais no tempo, pode-se lançar mão do fenômeno da estigmatização mística, definido no âmbito da mística cristã. Tal fenômeno apresenta vários elementos em comum com as intervenções contemporâneas radicais no corpo, ainda que seja definido em um contexto ideológico e estético diverso. Em síntese, os estigmas místicos podem ser apreendidos de acordo com três perspectivas, que também encontram-se presente nesses fenômenos contemporâneos envolvendo as tatuagens, os piercings e outras escarificações: a inscrição como presença material de uma realidade virtual, como sinal de pertença a um grupo e como sustentáculo de uma identidade reconhecida; o valor da sensação corporal impresso como dor e sangue; e o caráter instantâneo de cada imagem, ou seja, o caráter plástico da carne que se amolda às representações mais insondáveis de cada sujeito humano e que tenta driblar a sequência temporal cujo empuxo à finitude não pode ser detido.

A estigmatização e as marcas corporais contemporâneas sempre apelam para a plasticidade da carne, que sugere e tenta imortalizar o triunfo da linguagem. O poder do desejo pode banalizar a dor e isentar das regras naturais. Isso parece ser o que o sujeito quer testemunhar quando apresenta para si mesmo e para o outro um corpo calculadamente martirizado.     

5)Referências

5.1)Bibliográficas

ARAÚJO, J.F.B. de – CHATELARD, D.S. – CARVALHO, I.S. – VIANA, T. de C.   O corpo na dor: automutilação, masoquismo e pulsão. In: Estilos clin. Vol.21 nº2 São Paulo ago 2016.

ARTOLA, A.M.  Introducción. In: SANTA GEMA GALGANI  La gloria de la Cruz: Autobiografia – Diario espiritual – Cartas – Éxtasis – Outros escritos. Madrid: Biblioteca de autores cristianos, 2002, pp. XI-XLIV.

AZEVEDO, A.F.  Sentidos do corpo: metáfora e interdiscurso. In: Linguagem em (Dis)curso – LemD, Tubarão, SC, v. 14, mai/ago 2014, pp. 321-335.

BYNUM C.W.  The ressurrection of the body in Western Christianity, 200-1336. New York: Columbis University Press, 1995.

CORBIN, A. – COURTINE, J.-J. – VIGARELLO, G.  História do Corpo. 3. As mutações do olhar. O século XX. Petrópolis: Vozes, 2008.

GRECCO, M. G.  Orlan: a carne que se faz verbo. In: Opção lacaniana 43. São Paulo, maio 2005, pp. 108-111.

FESSLER, D.  Starvation, serotonina and symbolism: a psychobiocultural perspective on stigmata. In: Mind and Society: cognitive studies in economics and social scienses, 3(2): 81-96.  

GUERREIRO, D.F. – SAMPAIO, D.   Comportamentos autolesivos em adolescentes: uma revisão de literatura com foco na investigação em língua portuguesa (https://doi.org/10.1016/j.rpsp.2013.05.001Getrightsandcontent)

JEHA, S.  Um história da tatuagem no Brasil: do século XIX à década de 1970. São Paulo: Veneta, 2019.

LE BRETON, D.  Adeus ao corpo: antropologia e sociedade. Campinas: Papirus, 2007 (2ª ed.).

LE BRETON, D.  Antropologia do corpo e modernidade. Petrópolis: Vozes, 2011.

LEITE, J. (org.)  Santos de cada dia II. Braga: Editorial A.O., 2003 (4ª ed.).

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. DSM – V.

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.      

MOREIRA, J. de O. – TEIXEIRA, L.C. – NICOLAU, R. de F.   Inscrições corporais: tatuagens, piercings e escarificações à luz da psicanálise. In: Rev. Latinoam. Psicopatol. Fundam. Vol. 13 nº4 São Paulo Dec. 2010.

PIRES, B.F.  O corpo como suporte da arte: piercing, implante, escarificação, tatuagem. São Paulo: Editora Senac, 2005.

RAMOS, C.M.A.  As nazi-tatuagens: inscrições ou injúrias no corpo humano? São Paulo: Perspectiva, 2006.

SOLER, C.  O que faz laço? São Paulo: Escuta, 2016.

THURSTON,  H.  Les phénomès physiques du mysticisme. Editions Gallimard, 1961.

VERGINE, L. Il corpo come linguaggio: la “Body Art” e storie simili. s/l. s/d.

5.2)Catálogos

Marina Abramovic: the cleaner. Firenze. Palazzo Strozzi 21 Settembre 2018 – 20 Gennaio 2019

5.3)Sites

https://youtube/4ijyJVLcJhc

www.superabril.com.br


[1] Cf. GUERREIRO, D.F. – SAMPAIO, D.   Comportamentos autolesivos em adolescentes: uma revisão de literatura com foco na investigação em língua portuguesa (https://doi.org/10.1016/j.rpsp.2013.05.001Getrightsandcontent)

[2] «Não fareis incisões no corpo por algum morto e não fareis nenhuma tatuagem» (Levítico 19, 28).

[3] Cf. MOREIRA, J. de O. – TEIXEIRA, L.C. – NICOLAU, R. de F.   Inscrições corporais: tatuagens, piercings e escarificações à luz da psicanálise. In: Rev. Latinoam. Psicopatol. Fundam. Vol. 13 nº4 São Paulo Dec. 2010.

[4] Cf. ARAÚJO, J.F.B. de – CHATELARD, D.S. – CARVALHO, I.S. – VIANA, T. de C.   O corpo na dor: automutilação, masoquismo e pulsão. In: Estilos clin. Vol.21 nº2 São Paulo ago 2016.

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