5º programa: A sobrevivência da psicanálise em tempos do politicamente correto

5º programa: A sobrevivência da psicanálise em tempos do politicamente correto

A sobrevivência da psicanálise em tempos do politicamente correto

Redação e elaboração do conteúdo: Ario Borges Nunes Junior

Entrevistador: Helena Haeni

Comunicação: Alexandre Feliciano

Data de gravação: 02 out 2020

Local: espaço domus gaudii

A sobrevivência da psicanálise em tempos do politicamente correto

Sumário

1.O direito a uma identidade

Identidade e minorias

Empatia com a vítima

Relatividade da configuração social

2.Dissecando o politicamente correto

Horror ao patriarcado

Predador x presa

Ênfase no privado

Despeito

Patriarcado e poder

A mulher no contexto patriarcal

Patriarcado e erotismo

3.A sobrevivência da psicanálise

Lógicas opostas

Rebeldia da fantasia

A pulverização do pai

O que restou

1.O direito a uma identidade

Identidade e minorias

A identidade constrói-se a partir da somatória de micro traços de cada um dos personagens que contracenaram com o sujeito desde o seu nascimento. Os diversos relacionamentos vão definindo os contornos da ação para a lógica da fantasia e fornecendo os subsídios para a construção do mito individual. A arquitetura de si mesmo utiliza-se, ainda, de recursos extraídos da polifônica mentalidade que caracteriza o recorte espaço temporal no qual o sujeito está inserido. Isso permite identificar características específicas e definir critérios de agregação em grupos. A proliferação dos mesmos sustenta-se no brado: “reconheça-nos”, dirigido à sociedade mais ampla. Tal reivindicação é intensamente reforçada pelos movimentos sociais que surgem com uma força cada vez mais avassaladora nas redes virtuais[1]. A experiência de exclusão e menos valia em relação a outras pessoas e a outros grupos deve estar vinculada a essa lógica.

Os grupos reivindicam com tal determinação o direito próprio de existência que algumas vezes chegam a deturpar as argumentações racionais ou maquiar consequências a fim de provocar em cada interlocutor uma intensa reação de indignação e o empuxo de fazer com que a justiça se cumpra a qualquer preço. A causa maior justifica a imprecisão com que muitas vezes é tratada uma situação específica[2]. A reivindicação política passa a se aplicar sobre cada fato ou acontecimento, dotando-o de uma nova perspectiva.

O aspecto que mais se destaca diz respeito ao grau de vulnerabilidade dos integrantes dos grupos enquanto parcialmente excluídos da estrutura dominante. A expressão da indignação convida a um exame sobre as circunstâncias históricas que definiram a sofrida constituição da identidade do possível grupo minoritário em questão. A atitude de empatia e a expressão de solidariedade com tal condição caracteriza o clima «politicamente correto», designação atribuída a um grupo de neoliberais norte americanos.

Empatia com a vítima 

Isso repercute na constituição do discurso do «politicamente correto» que impõe a necessidade que, previamente à apresentação ou discussão de alguns assuntos, haja uma atenta introdução ao tema, como um metafórico ritual de exorcismo contra a presença de ideias que possam ser interpretadas como veículos de preconceitos ou de arbitrariedades atribuídas ao regime patriarcal de organização social. A apresentação de um tema relativo a um grupo minoritário, para não cair na desgraça dos leitores ou ouvintes, exige a prévia enunciação de ideias que expressem, com veemência, indignação e quem sabe sede de vingança.

No trato geral de cada um com o seu semelhante, ao lado da indignação que geralmente acompanha o afeto despertado por aquele que está em uma condição de inferioridade, existe o despeito, que é o afeto despertado por aqueles que estão em uma condição social e econômica superior à do sujeito. Quando aquele que contra cena é rico e poderoso, o enredo tende a tomá-lo como culpado por algum desvio ético que permitiu o seu acesso à condição de poder. A presunção é de que “alguma o cara fez para chegar lá”, passou por cima de pessoas, não foi ético, e assim por diante. Nesses casos, o figurão em questão é um produtor de vítimas. Em síntese, a vulnerabilidade encanta, promove identificação, enquanto que a situação social privilegiada suscita, ao contrário, um afeto de repúdio, de associação a um proceder não ético.

As pessoas que estão em situação de vulnerabilidade social despertam a empatia e a solidariedade do interlocutor, pois as suas condições desfavoráveis de vida são, geralmente, interpretadas como fruto do abuso sofrido da parte de pessoas com maior poder econômico e político motivadas pelos próprios interesses. A condição de vítima suscita indignação, da parte do interlocutor, pois tal posição pressupõe sempre a figura de um agressor.

Relatividade da configuração social

O politicamente correto opera no sentido de denunciar a relatividade da configuração social. A estrutura social é o resultado de um certo encadeamento dos fatos históricos, de modo que poderia ter-se configurado de outra maneira. A ideologia parte de acontecimentos que foram descritos e arranjados visando um determinado objetivo. A ideologia serve-se de diversas formações discursivas para a produção e a transmissão de um saber que possa fundamentar um ato arbitrário contra uma pessoa ou contra um grupo.  Poderia ter sido diferente se os valores veiculados nas formações discursivas privilegiassem outros tipos de encadeamento entre os fatos.

Parece que o objetivo mais genuíno da postura denominada de politicamente correto é o de provar que o imaginário social é relativo é o efeito de sobreposição de sentidos, portanto, de fala. A linguagem pode cristalizar crenças, engendrar verdades, criar preconceitos, como ocorria, de forma não tão conflitante, há algumas décadas atrás, por meio de palavrões, gírias, piadas, ditados populares ou mesmo letras de músicas. Nesse contexto, a realidade objetiva é construída por uma combinação de sentidos transmitidos sob diversas formas de mensagens.

2.Dissecando o politicamente correto

O patriarcado e a interação predador x presa

A estrutura social que o discurso do politicamente correto visa devastar é a do patriarcado. Nele, está a base de toda a injustiça e de toda arbitrariedade, segundo a lógica do politicamente correto. A dinâmica que o sustenta é a do dominador x dominado. Tudo que provém do patriarcado carrega a marca da opressão do forte sobre o fraco.

De fato, tanto o despeito quanto a indignação podem ser pensados em relação ao patriarcado. A concentração de poder no pai, no patriarca, define relações específicas entre os membros do grupo. A lógica patriarcal tende a cristalizar a mulher na posição de passividade, enfatizando a sua pretensa fragilidade e sua incapacidade de se posicionar por si mesma (fruto aqui do castigo imposto à mulher pelo Criador, qual seja sua incapacidade autogovernar-se)[3].

Na base do feminismo, encontra-se a crítica ao caráter patriarcal que norteia direta ou indiretamente todas as relações entre as pessoas. A ética patriarcal surge justamente do ponto no qual acredita-se que a mulher é governada por inclinações pouco objetivas, necessitando de um suporte externo para não sucumbir ao desvairio do próprio desejo. Tudo isso, como já foi visto em algum momento, tem raízes no Gênesis cuja trama gira em torno da vacilação da mulher frente a astuciosa serpente, da posterior adesão do homem, e da resposta do Criador.

Patriarcado e erotismo

A estrutura patriarcal fundamenta-se nas relações heterossexuais, visando a criação da prole. Tal finalidade permite à mulher ser tomada como objeto. Romper com a estrutura patriarcal significa romper com a função primaz de geradora de filhos. Nessa condição, a mulher-fêmea teria que estar inteiramente à disposição dos homens-machos para o ato de engendramento de um novo ser humano. Essa lógica, no fundo, exclui a vontade da mulher, sobrepondo a ela a disposição pronta e imediata para a cópula. Nesse sentido, pode-se pensar a lógica heterossexual, enquanto garantidora da continuação da espécie, como opressiva, na medida em que ela se sobrepõe ao desejo dos protagonistas em questão.

Pela função de procriadora, a mulher foi facilmente tomada como presa. A função sobrepôs-se ao desejo, na lógica original. Mesmo a mulher tendo se afastado da condição de procriadora por excelência, seu trato na lógica heterossexual ainda carrega essa ranço de disponibilidade irrestrita para a função geradora. Isso dificulta o reconhecimento do próprio desejo ou mesmo impede a livre escolha que é transferida para o outro.

Deve-se levar em conta ainda que o relacionamento afetivo e sexual humano é dinamizado pela fantasia que inconscientemente situa cada um dos membros na parceria amorosa. No comércio sexual propriamente dito, há menções explícitas à fantasia sob a forma de piadas, de pequenos enredos, de jogos sexuais e assim por diante. Compõem os enredos fantasiosos a alusão a cenas de dominação e subjugação, como nós psicanalistas ouvimos com frequência nos nossos consultórios. Assim, para que haja a excitação suficiente para a fruição do gozo fálico, cria-se um enredo que parece um pouco distante dos critérios do politicamente correto que imperam na contemporaneidade.

A fantasia é rebelde ao politicamente correto. A psicanálise opera ao nível da fantasia. É a fantasia que regula a satisfação pulsional.

3.A sobrevivência da psicanálise

Lógicas opostas

A questão do politicamente correto é uma fonte de produção de sentido infindável. A situação de maior vulnerabilidade representada pelos grupos das minorias que demandam escuta e reconhecimento levam a complexas redes explicativas que envolvem o encadeamento de fatos históricos, os conflitos entre ideologias, a busca pelo poder etc.

Entre a lógica psicanalítica e aquela que caracteriza o politicamente correto trava-se um evidente embate. Tal divergência será aqui analisada, começando pela ideia de satisfação pulsional. De imediato, essa ideia coloca em xeque o campo do politicamente correto. É sabido por todos os psicanalistas que o desfrute que se experimenta nos entretenimentos sexuais não é simplesmente o produto de fricções das zonas erógenas. Há um mediador presente, de ordem metafísica, que é o que dá vida para o negócio. Trata-se da fantasia, onde cada qual tem que se revestir de personagens já definidos de longa data, pelo circuito pulsional. Tudo isso é executado segundo enredos específicos também há muito já definidos e mobilizados pela certeza de que a execução de cada passo do script da fantasia proporcionará um intenso fluxo de gozo.

Rebeldia da fantasia

A fantasia dirige a cena e é rebelde a qualquer contorno, que não os que lhe são próprios, que a definem O jogo entre a realização do desejo genuíno e o consentimento em se colocar fantasiosamente, durante o encontro, à disposição do outro (e/ou de usufruir de tal condição) sustenta o clima erótico. A fantasia inconsciente atualiza-se, de forma evidente, no jogo de cena do encontro amoroso. Trata-se de um jogo em torno do falo, para se expressar em termos psicanalíticos bem clássicos. A alternância de posições entre ter o falo e ser falo permite extrair graça da brincadeira, engendra o gozo fálico, para o qual a fantasia inconsciente funciona como insumo. A fantasia inconsciente contém ela mesma uma dinâmica um jogo de entrega e, ao mesmo tempo, de resistência aos caprichos do outro.

A pulverização do pai 

A partição que Lacan faz do termo perversão resulta em um sentido bem definido: «versão do pai». Assim, pode-se enfatizar, em relação ao termo, não só o aspecto jurídico nele envolvido, relacionado a provocar constrangimento ao semelhante, mas também é possível, na esteira de Lacan, privilegiar uma perspectiva estrutural da palavra.

Nestes tempos, uma versão do pai universalizante não consegue mais se sustentar como barreira para segurar os efeitos do confronto com os pontos de vacilação da existência, a não ser mediante a sua cristalização em certos modelos estereotipados, como o tirano, o ditador…, por exemplo, mas ainda assim a construção revela-se, de largada, frágil e temerária. Parece que a esperança em um ideal de pai que atenua a condição de vulnerabilidade expressa pela morte fracassou.

Um pai poderia representar uma dimensão do desejo humano, aquela que qualquer ser humano aspira de melhorar a vida grupal. A ética convoca o sujeito para ir além do interesse imediato despertado pela sua condição natural. Isso, ao mesmo tempo em que é um suplício para o ser falante como tão bem demonstrou o Freud em O mal estar na civilização, é quase que uma sobrevivência da condição subjetiva. Para a maioria dos sujeitos, a constatação da prevalência do aspecto mais primitivo é fonte de um estranhamento, que se estende ao encontro com o outro e no confronto com os enigmas que definem a existência humana.

Atualmente, assiste-se uma proliferação de simulacros do pai, cujas versões atualizam-se por meio de grupos que reivindicam da sociedade o reconhecimento de um espaço de existência, ou seja, o reconhecimento de uma identidade por parte do grupo social mais amplo, que lhes garante o direito de fazer valer os próprios princípios. Os movimentos sociais surgem com uma força cada vez mais avassaladora[4]. Os grupos reivindicam com muita determinação o direito próprio de existência. Algumas vezes as argumentações racionais ou as provas objetivas são deturpadas ou negligenciadas extrapolando a situação objetiva específica para dar voz a uma causa maior que vem atravessando séculos de história em nome da intensa reação afetiva por parte do interlocutor ou ao preço de se fazer justiça a qualquer preço.

O politicamente correto e o corpo

A incidência do politicamente correto sobre o corpo tem uma expressiva repercussão na clínica contemporânea. A questão de como chegar à excelência na relação com o próprio corpo tem ocupado de maneira absoluta a cabeça de muitas pessoas. No fundo, a preocupação diz respeito a um superfaturamento da condição orgânica: “como se pode extrair a maior eficiência do arcabouço corporal, em termos de longevidade, saúde e, é claro, beleza?”.

Uma fatia da população, principalmente jovem, talvez, fixou-se nos tratos com o corpo que decorrem da lógica exposta logo acima. Alguns quadros clínicos apresentam essa problemática de forma bastante ilustrativa como aqueles relativos aos distúrbios alimentares. As dietas minimalistas e os condicionamentos físicos exagerados produzem corpos esquálidos. Isso nada mais é do que um exorcismo ao temor da vulnerabilidade, da seguinte natureza: se não pode derrotar a coisa, una-se a ela, então. A falta apresenta-se emoldurada. O campo é o da ambiguidade. Os corpos esquálidos são valorizados em alguns contextos porque remetem ao exercício de uma árdua disciplina que compete com a ascese dos padres do deserto. Nesse sentido, tudo funciona na linha do esforço, da auto superação. Quer valer a crença de que é possível superar a vulnerabilidade humana por meio de um rigoroso jejum e por uma árida disciplina alimentar. O que se  produz? em um contexto assim definido? Corpos esquálidos que testemunham a vulnerabilidade, ainda que muitas vezes emoldurados em ricos brocados de ouro. É um corpo relicário. Vislumbra-se a transcendência por detrás de efeitos estéticos da condição vulnerável. É um corpo relicário que se propõe pleno e eterno quando as evidências sustentam tal possibilidade.      

Conclusão

A realidade discursiva do politicamente correto traz a contribuição de enfatizar o caráter relativo da configuração social, isto é, reafirma que a estrutura da sociedade contemporânea se apresenta apenas como o resultado de determinadas conjunturas históricas. De outra perspectiva, o politicamente correto engendra uma atitude de vigilância, pois de acordo com a sua lógica, o mundo está dividido em dois princípios: o do predador e o da presa.  A diferença interpela o ser humano, o outro sempre coloca em xeque os elementos sombrios operantes na construção da própria identidade. Nesse sentido, deve-se considerar que o proibido de circular na linguagem pode a reaparecer em ato, como agressão física, por exemplo. Essa dinâmica funciona em sentido oposto à psicanálise, cuja ética fundamenta-se na plena possibilidade de fala: “fale tudo o que passar pela cabeça”. Ao contrário, o politicamente correto, constrange a liberdade de expressão apenas a um âmbito concordante com os pontos de vista e com as reivindicações das minorias. Toda a argumentação oposta a tais enunciados situa o agente do discurso na posição de opressor.


[1] BOSCO, F.  A vítima tem sempre razão? Lutas identitárias e o novo espaço público brasileiro. São Paulo: Todavia, 2017, p.

[2] Cfr. BOSCO, A vítima, pp. 141-143.

[3] Cfr. Bíblia de Jerusalém, Gênesis 3, 3-7.

[4] Cf. BOSCO, F.  A vítima tem sempre razão? Lutas identitárias e o novo espaço público brasileiro. São Paulo: Todavia, 2017.

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